terça-feira, 22 de maio de 2018

Em Espírito e em fogo



Realmente o texto citado está em Mt 3:11 –

Eu vos batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.
(aqui na versão da NVI – os versos 11 e 12 para dar mais sentido à citação).

As citações paralelas são:
+ Mc 1:8 – “...batizará com o Espírito Santo.
+ Lc 3:16 – “... batizará com Espírito Santo e com fogo.
+ Jo 1:33 – “... o que batiza com o Espírito Santo.

Esse é um riquíssimo texto onde João, o Batista apresenta Jesus e compara seu ministério com o dele, reconhecendo a limitação histórico-temporal e espiritual do primeiro em relação segundo que estava por se iniciar. Vários elementos estão presentes nesta declaração e que podem – e devem – embasar aspectos importantes de nossa doutrina quanto à pessoa de Cristo, a nossa salvação, vivência espiritual-cristã e compreensão de igreja.
Mas vamos focar no tema do fogo – esta é a questão aqui.

Alguns detalhes da citação em grego para ajudar na compreensão do autor original:
αὐτὸς ὑμᾶς βαπτίσει ἐν πνεύματι ἁγίῳ καὶ πυρί·

Vamos lá:
=> A primeira coisa que me chama a atenção é jogo de preposições: o batismo de João é com (ἐνem) água, para (εἰς – no começo do versículo) arrependimento. A água é o instrumento; o arrependimento, o propósito. A água, a forma exterior; o arrependimento, a manifestação interior. Aqui a Chave Linguística propõe: “...tendo em vista...”.
=> O batismo de Jesus vai além. Ele é com (em) Espírito Santo e fogo: este é o veículo/instrumento da obra que Jesus faz. O propósito é limpar completamente a eira (continuação da frase no verso 12).

Quanto ao fogo em si. Acompanhe mais um pouco passeando pela Bíblia.

No AT, a presença do fogo, de maneira recorrente, representa a própria manifestação divina (veja por exemplo Êx 3:2 ou Nm 9:15). Também o fogo representa a ação de justiça, purificação e santificação do próprio Deus (lembre o Sl 21:9 e Êx 24:17; Is 30:27-30 e no NT Hb 12:29).
Há ainda a referência a Pentecoste (em At 2:1-4), mas creio que aqui a referência só seria indireta. Prefiro continuar com a compreensão da ação de Cristo – e do Espírito Santo – na vida do crente como presença purificadora.
É bom acrescentar aqui a Parábola do Trigo e do Joio em Mt 13:24-30 onde Jesus conclui destinando o joio imprestável ao fogo.
Outro texto interessante é a vocação de Isaías (Is 6:1-8). A visão da presença do Senhor é acompanhada de serafins (figuras flamejantes) e a casa se enche de fumaça. Contudo isso não é apenas um espetáculo (ainda que espiritual!). A presença real (batismo) de Deus exige santificação. No caso do profeta, o problema foi resolvido com a brasa viva que lhe tocou os lábios.
Ou seja, o fogo é a ação de Deus em nos limpar, purificar e capacitar para estar em sua presença.
A ilustração do fogo é ainda abundante na Bíblia: do fogo que consumiu Sodoma e Gomorra em Gn 19:24-25 ao fogo que destroi o diabo e seus assecla em Ap 20:9-10.

João entendeu seu batismo em água como um chamado ao arrependimento – um começo de experiência espiritual. O arrependimento nos alerta e traz de volta à presença sagrada. Mas somente Cristo quando opera em nós através do Espírito Santo pode consumir nosso pecado com seu fogo sagrado.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

EU VOS BATIZO EM ÁGUA


Vamos pensar um pouco sobre a cerimônia cristã do Batismo. Assim como a Ceia do Senhor, além de ser o cumprimento da instrução cristã, a cerimônia de Batismo é repleta de simbolismos e significados (e eu até creio que é por isso mesmo que elas são tão belas e importantes!).
No Batismo, da forma em que o celebramos, há todo o ritual de mergulho e saída da água que nos aponta para a morte e a ressurreição que, pela fé, já aconteceram em Cristo Jesus (bem explanado por Paulo em Cl 2:12) – além de ser um testemunho e proclamação da mesma fé.
Mas a água, instrumento ou veículo pelo qual o batismo acontece, pode ainda nos fornecer outras referências que enriquecem ainda mais o ato.
Água sempre nos lembra limpeza. Ao oficiar o Batismo como um banho ritual, posso também está demonstrando que minha vida já foi lavada e purificada. Sei que é o sangue de Cristo quem faz isso acontecer (veja tanto 1Jo 1:7 quanto a descrição da multidão em Ap 7:14), mas com certeza na água do batismo estou exteriormente demonstrando de forma simbólica aquilo que Jesus já fez no meu interior.
Com certeza devo também me lembrar que água é sinal de refrigério, alívio – principalmente tendo em mente o sol do sertão nordestino. Estando dentro da água, ao celebrar o Batismo, sou levado a bendizer o Senhor porque assim como no calor o corpo exterior se sente revigorado pela água, o meu homem interior se refaz com ânimo pelo bálsamo que Cristo traz. E nenhum texto diz isso de maneira mais poética que o Salmo do pastor: o Senhor, que é meu pastor, me conduz a águas tranquilas e me restaura o vigor (sei que todos conhecem o Sl 23, aqui citados os versos 1 a 3).
E ainda a água é indispensável como provisão. Sem água o corpo humano definha e morre. No Batismo em água sou confrontado com a Água Viva que dessedenta toda a sede espiritual. No cerimonial cristão tenho apenas o símbolo, mas ele poderá me reavivar na memória a alegria de já ter bebido da água que mata a sede eterna de minha alma (veja como Jesus usa esta figura com a mulher samaritana em Jo 4:13-14).
João, o batista anunciou o seu batismo em água como um sinal de arrependimento (leia em Mt 3:11). Hoje deve a igreja seguir seu modelo na certeza de que os símbolos da celebração testemunharão a minha fé já com a alma lavada, refrigerada e saciada. E assim cumpriremos a ordem deixada por Cristo para a glória dele.
(A partir de um post no sítio ibsolonascente.blogspot.com em 26 de março de 2010)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A MISSÃO COMO LIBERTAÇÃO


Sexta parte das considerações sobre o livro Compromiso y Misión de Orlando Costas, publicado em 1979.

Há ainda o aspecto da missão como libertação. Este é o desdobramento que nos conduz a refletir sobre a visibilidade da missão e do compromisso da igreja. Neste ponto os exemplos se mostram mais eficazes na argumentação. De um lado há os que interpretam a missão como libertação apenas espiritual sem entrar a fundo em outras questões sociais, econômicas e políticas – como se comportaram as jovens igrejas fruto das missões protestantes na América Latina. De outro, Costas cita cristãos como Bartolomeu de las Casas no México, G. Carey em Bengala, A. Schweitzer na África, E. Strachan em Costa Rica – e acrescentaríamos D. Bonhoeffer na Alemanha nazista e M. Luther King na América racista – que “qualquer que seja sua teologia, têm participado em esforços para servir a homens e mulheres no nível de suas necessidades sociais” (p. 113). Homens dos quais o mundo não era digno (Hb 11).
A conclusão de Costas é contundente:
Porque a verdadeira prova da missão não é se proclamamos e fazemos discípulos ou se nos comprometemos na libertação social, econômica e política, senão se somos capazes de integrar as três coisas em um testemunho amplo e dinâmico. Daí que necessitamos pedir ao Senhor que nos liberte não somente desta situação inútil, senão que nos liberte para a integralidade na missão (p. 130 – itálicos no original).
Neste ponto Costas interpõe um artigo sobre o evangelho e os pobres que compensa uma transcrição de um bloco inteiro de texto quando ele procura argumentar o papel dos pobres dentro da missão da igreja:
Não sem razão Jesus ligou sua missão com a questão dos pobres, dos cegos, dos cativos e dos oprimidos: eles são a maior evidência da tragédia do pecado! O evangelho é para todo o que se veja quebrantado e maltratado. Para eles prega o Ano do Jubileu, a nova era de Deus, a libertação da história!
Por isso é que os pobres afetam profundamente a identidade da igreja. A igreja é tanto sinal do compromisso de Deus com os desditos quanto primícias da nova criação. Na igreja deve caber todo tipo de ser humano, mas mais que ninguém o pária, o quebrantado e o marginalizado da sociedade, porque a igreja é paradigma da nova humanidade que Deus está formando através da obra salvífica de Cristo, paradigma que se logra e materializa mediante o poder do Espírito Santo no meio da discordância e deformação da sociedade (p. 133-134 – itálico no original).


Continua...

sexta-feira, 11 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 1ª parte


Antes de refletir um pouco sobre a declaração de Josué e suas implicações para minha vida e da minha casa e igreja, sou levado a constatar que, em geral, a expressão bíblica é usada pelo nosso povo num sentido distinto daquele em que foi proferido inicialmente em Siquém.
Do jeito que ouvimos hoje a formulação: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" como jargão na boca, em adesivos, camisas ou em outros souvenir e badulaques, beira a uma formulação de magia (algo como wicca de crente!) usada para proferir promessa ou profecia autodeclarada. É como se ao pronunciar as palavras sagradas, Deus – e o próprio universo – estivesse sendo submetido à obrigação de agregar todos da minha casa à minha fé.
Parece absurdo, mas tem sido assim... contudo, deixemos a crítica de lado, e vamos ao texto, sua análise e às suas lições, pois é o que realmente nos interessa.
Dando-me à liberdade de uma tradução mais livre do verso bíblico eu diria: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Lendo o contexto, esta opção de tradução se esclarece melhor. Vejamos.
O grande Josué tinha consciência que estava no final de sua jornada, e por isso convocou os chefes nacionais para as últimas tratativas (confira Js 23:14). E o texto diz que líderes, juízes e oficiais de Israel compareceram diante de Deus (no primeiro verso do capítulo 24).
Todos estavam ali não para ouvir um velho a murmurar ou resmungar: no meu tempo... pelo contrário, eram os anos de experiência de Josué com o seu Deus que lhe conferiam os requisitos indispensáveis para conduzir o povo na presença do Senhor e desafiar a cada um deles a uma tomada de posição. Afinal, Deus estaria ali em Siquém. Josué o sabia. Israel também.
O discurso daquele dia teve como ponto de partida as poderosas ações de Deus na história do povo. Esta é uma prática que se tornaria padrão entre os homens e mulheres de Deus na Bíblia. Josué aprendeu desta maneira com seu mentor Moisés (atente Dt 32:7) e, depois dele, a história foi repetida em canções e serviu de base para a palavra profética (por exemplo o Sl 136 e Ez 20). E no NT Estevão usou o mesmo método (veja At 7).
A verdade é que nosso Deus sempre intervém e age na história dos seus, isso é graça e faz toda a diferença! Josué sabia disso por experiência própria.
Por ora, preciso confessar que, em nossos ajuntamentos, sinto falta de narrações que se inspirem na Revelação e transpirem para a história e não que vagueiem de um extremo da caatinga argumentativa para o aguaceiro da experiência. Aprendi que Deus está é no encontro da viração do dia no jardim (como é significativa a descrição deste encontro em Gn 3:8).
Prosseguindo com o contexto. Foi exatamente a experiência de Josué em liderar o povo que indicou que algumas escolhas fundamentais na vida não podem ser impostas de maneira arbitrária e autoritária. Por isso então ele apontou caminhos, deu opções. Com base na história, o povo deveria escolher: o deus dos pais, o deus da terra, ou Deus da história.
Ainda hoje ainda uma escolha deve ser feita. Diante de nós está a necessidade de escolhermos entre o deus estável da tradição (seja qual a for configuração religiosa ou espiritual com a qual ele se apresente), o deus sedutor da modernidade (com toda sorte de promessas ou experiências que descortinem), ou o Emanuel, o Deus que se fez história e habitou entre nós, cheio de graça e verdade (compare Mt 1:23 com Jo 1:14).
É neste ponto que a liderança de Josué se destaca mais uma vez. Antes que qualquer um dos chefes de família dissesse algo, ele tomou a dianteira e afirmou com convicção: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Ele não rogou bênção ou maldição (até porque já as tinha ouvido da boca de Moisés como ainda hoje eu leio em Dt 11:26-28). Também não apelou para acalantos espirituais ou bradou impropérios. Ele tomou uma decisão baseada no conhecimento que tinha da revelação de Deus e sua atuação na história de Israel.
Continua ...
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Santa Maria mãe de Deus


O tema da meditação de hoje pode não tocar o núcleo da mensagem do Evangelho, que é a justificação pela graça mediante a fé, mas é certamente um dos temas mais populares de discussão quando se trata de diferenças entre católicos e protestantes. Eles dizem que, de fato, os protestantes não acreditam na Virgem Maria e nos santos. O problema, no entanto, é mais complexo e é importante. Ele pode ser resumido em uma declaração enganosa. O personagem de Maria de Nazaré é fundamental para o Protestantismo. Claro que não dá fundamento a uma disciplina teológica específica que para os católicos é chamada Mariologia, mas ilustra as passagens decisivas da história da salvação da humanidade.
Deixe-me começar com três datas históricas e eventos relacionados a eles. Jerusalém, metade do quinto século a.C. (458-7 ca). O escriba Esdras chega à cidade que há algum tempo tem recebido de volta os judeus exilados na Babilônia. É o período da reconstrução do Templo e as reformas religiosas e políticas que afetam o povo de Israel naqueles anos. A reforma de Esdras se inspira na divulgação e conhecimento da Lei e na formação de um grande grupo de sacerdotes e lugares de culto, no conhecimento e na observância da Lei. A reforma fará do povo de Israel uma nação de judeus reais, que deve ser limitada para aqueles que possam provar, com registros genealógicos, sua descendência de judeus exilados. Quem não provar a sua pureza racial e ritual é considerado um bastardo. Mas nem todo mundo em Israel aceita esses princípios.
Uma parte do grupo sacerdotal lidera a oposição, que se expressa na compilação de alguns livros mesclados no cânon da Bíblia (que mostram, pela sua presença, que a Bíblia nem sempre é uniforme). Eles são o Livro de Jonas, o livro de Jó e do Livro de Rute. O último é uma obra de grande beleza, atravessada por histórias de amor e sofrimento, preocupações, esperanças e temores, de humildade e pobreza. O livro conclui, deixando-nos saber que Rute é uma ancestral direta do Rei Davi, Rute foi mãe de Obede, que gerou Jessé, que foi pai de Davi. Esta genealogia, no entanto, torna-se mais interessante se sabemos que Rute não era israelita, mas veio da terra de Moabe, um país não amigo, contra quem os profetas falaram muitas vezes. Aqui é o significado da genealogia. Os autores do livro de Rute argumentam que, sob as leis de Esdras, mesmo o rei Davi, o símbolo da aliança entre Deus e seu povo, ele seria imundo e bastardo, porque descendente de Rute, a moabita.
Esta história, tão distante no tempo a partir da história de Maria de Nazaré, tem, em todo caso, laços com ele. Laços bíblicos, tecidos a partir das Escrituras.
Segunda data, 74-80 d.C., em uma igreja oriental, talvez na Síria, talvez na Fenícia. Um cristão que tem sido chamado Mateus, na elaboração do Evangelho de mesmo nome, começa sua narrativa com a genealogia: a genealogia de Jesus. Mesmo esta não é uma seca coleção de nomes, mas quer expressar um sentimento, uma coleção de sinais significativos. Em meio a uma genealogia patrilinear está a presença de cinco mulheres. Eles são Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba e Maria. Essas mulheres não são mencionadas no número das ancestrais famosas: Sara, Rebeca, Raquel. Estas são de menor estatura, se comparadas a celebridades na história nacional. Mateus as cita provavelmente porque entraram na história do nascimento de Jesus de maneira pouco ritual. Tamar era a nora de Judá, filho de Jacó. Ela não se tornou mãe através dos filhos de Judá, mas por um estratagema fingiu ser uma prostituta e se juntou a seu sogro, gerando, assim, um dos antepassados de Cristo. Raabe era uma prostituta de Jericó que favoreceu a captura da cidade por Josué. Rute, como já dissemos, contaminou pureza racial de seu descendente Davi. Bate-Seba, mãe de Salomão, ela se juntou ao rei Davi através de uma história sombria, caracterizada por adultério e assassinato.
Estas são as mulheres que, na genealogia escrita por Mateus, precedem Maria de Nazaré. São mulheres que produzem contaminação, são as mulheres que produzem constrangimento, que criam problemas morais. E Maria? Nós conhecemos a história. A menina de Nazaré estava noiva de um jovem justo, chamado José. Antes de se ajuntarem, Maria se achou grávida pelo Espírito Santo. É quase sempre o caso. Quando o Espírito Santo atua há sempre algo que dá errado, algo que não vai como deveria. Pelo menos de acordo com os costumes e os valores consolidados. Porque é verdade. Esta intervenção do Espírito produz na história do cristianismo o tema da concepção virginal de Jesus. Tema fundamental para o catolicismo, mas que também cruza teologias protestantes delicadas. Tema certamente glorioso, mas que por razões de respeito, por motivos relacionados com a economia da minha palestra, eu não vou tratar. Porque o que eu acho que é importante é que, mesmo aqui, no caso de Maria, e através do trabalho do Espírito Santo, nos encontramos no contexto daquelas histórias de constrangimento, de problemas, de histórias de amor e afeto que não são histórias lineares, mas humanas, das pessoas humildes e pobres, histórias de mulheres que não podem ter filhos ou que os tinham pelo caminho errado. Para aqueles que conheciam Maria, ela não cumpriu as promessas de noivado, e por isso era uma mulher desonesta. A resposta de Maria a todos esse emaranhado intrincado é muito alta e muito simples: eu sou a serva do Senhor, ele fez comigo o que disse. Humilhação, aceitação humildade da vontade de Deus. A perda e coragem. A resposta de fé: a minha alma exalta o Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua humilde serva. Eis que, de agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome.
Terceira data, 431 d.C., Éfeso, na Ásia Menor. Lugar e período de muita discussão entre os cristãos. O cristianismo se desenvolveu no Oriente através de lacerações dolorosas e debates acalorados. Um novo problema surgiu. Era difícil para alguns cristãos, que poderiam ser chamados espiritualistas, aceitar plenamente a humanidade de Deus. Deus habita as alturas elevadas, nós não. E também para o filho de Maria, para Jesus de Nazaré, como seria possível tornar mais racionalmente clara com distinções precisas? Por exemplo, se poderia dizer que Jesus, o filho de Maria, era apenas um homem, certamente eleito, porque guiado e inspirado pelo verdadeiro Cristo, eterno e verdadeiramente divino. Este, filho do Pai, o divino, mas não o filho de sua mãe. O Cristo-Deus no alto e Jesus em baixo, ligados, mas não unidos na mesma pessoa. Aqui está uma forma fácil e razoável para salvar a divindade de Deus, sem contaminá-la nem misturar com este mundo impuro. Toda a igreja, em seguida, se reuniu em conselho na cidade de Éfeso e decidiu que não, que não é assim. Ela entendeu que Cristo é o filho do Pai e também filho de sua mãe. E para expressar esse conceito em uma fórmula declarou Maria "Mãe de Deus". A fórmula pode parecer surpreendente hoje. A encarnação de Deus e a humanidade são coisas sérias. Elas indicam rebaixamento e aniquilação. Elas indicam a renúncia de Deus de sua santidade e separação. Elas indicam a renúncia de Deus à sua própria pureza. E tudo isso através do corpo de uma mulher. Então, Jesus Cristo, o Senhor é nascido de mulher.
Podemos agora avaliar a solidariedade de Maria com as outras mulheres da genealogia de Mateus. Todas essas mulheres quebram, de uma forma ou de outra, a obsessão com a pureza. Da pureza moral, de pureza étnica, a pureza da Lei. Maria rompe e contamina, com suas entranhas, a mesma pureza sagrada de Deus. Em seu corpo isso acontece, basta seguir a fórmula de Éfeso "mãe de Deus". O que acontece em seu corpo é que Deus não permanece puro em sua espiritualidade, em suas alturas. Deus se mistura com a carne de Maria, no seu ventre. Por esta razão dizemos aos irmãos católicos, respeitosamente, mas com firmeza, que estamos em desacordo com a santificação de Maria, com seus altares de culto. Maria pertence à história das misturas e dos embaraços, do mundo da natureza grande e problemática das grandes contradições. Ele pertence ao nosso mundo humano, ao emaranhado insolúvel de esperança e de miséria, humilhação e oração. Em seu louvor do Magnificat está toda a voz dos pobres, daqueles que são tão pobres que somente podem esperar em Deus, no Deus que exalta os humildes e enche de bens os famintos. Neste mundo, a menina de Nazaré está em sua casa. O mundo cuja pureza celestial nunca conheceu.
Amém.
Fabrizio Oppo
Fonte:
http://www.ucebi.it/biblicamente/

Para ler mais sobre Maria acesse:
MARIA - a mãe do Senhor
Cinco mães na Bíblia


sexta-feira, 4 de maio de 2018

A LEI E A PROFECIA


No livro de Provérbios há um que diz de maneira direta: Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é feliz (Pv 29:18 ARA). Foi com tal pano-de-fundo que me ocupei em refletir o quanto o conhecimento bíblico é - deve ser! - importante para nós.
Veja logo de interessante que neste verso estão alinhados a profecia (no original significando revelação ou instrução divina) e lei (o conjunto de ditames prescritos). A antiga e consagrada tradição e a novidade revigorante. O espírito e a letra.
Daí foi fácil ser conduzido a pensar nos profetas clássicos de Israel. Até por que eles viveram numa época em que a Lei moisaica já estava cristalizada - escrita - e a voz do Senhor continuava ativa - falada.
Os profetas eram homens profundamente comprometidos com Deus e sua Lei revelada: seu conhecimento, aplicação e contextualização. Mas também revestidos de uma paixão contagiante pelo Deus que falou e fala. Assim se faz profecia.
Se por um lado a alma e as emoções daqueles profetas estavam sensíveis ao contato espiritual com a revelação cotidiana, por outro, suas mentes permaneciam aguçadas para assimilar e compreender a essência da Lei.
Assim:
O alerta profético sempre foi no sentido de que ao abandonar a Lei, seu conhecimento e estudo sistemático, o povo correia risco de perecer (compare profecias como as de Os 4:6 e 6:3-6; Is 1:3; Ml 2:8-9; Dn 9:11-13 entre outras).
Foi o ardor profético que desafiou o povo a estudar, conhecer, investigar, aprender e seguir o que está estabelecido por Deus em sua lei (folheei mais na Bíblia em Ml 2:7 e 4:4; Is 54:13; Mq 4:2; Ag 2:11 e por aí vai…).
Assim diante de nós hoje também está a Lei e a profecia. Uma não pode subsistir sem a outra. Ou atinamos nossos ouvidos espirituais para ouvir as profecias e também renovamos nossa sede de conhecimento da Palavra, ou não teremos nenhum dos dois.
(Do Boletim dominical da PIBA em 29/04/2018)

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A MISSÃO COMO CRESCIMENTO INTEGRAL


Quinta parte das considerações sobre o livro Compromiso y Misióin de Orlando Costas, publicado em 1979.

Mais um aspecto da missão é o crescimento integral. Costas observa: “no Novo Testamento, a ação do Espírito Santo se orienta sempre ao crescimento” (p. 77). Mas crescimento é um conceito multiforme. O crescimento cristão, fruto da missão, é inicialmente em largura: usando a figura da plantação, o ideal do crescimento em largura nos fala de crescimento numérico, e isto quer dizer: semeadura, cultivo, poda para somente depois haver colheita. Costas aqui expõe a idéia de que a missão não está restrita a um método qualquer que seja – como se fosse uma “vaca sagrada” – nem à igreja institucional – “como se o Espírito Santo estivesse sociologicamente atado à igreja e ao que ela poderia lograr” (p. 89).
Outro aspecto do crescimento é em profundidade. E para isto foi que o Senhor da missão dotou a igreja de habilidades especiais (Efésios 4:11-16). Compreendendo-se a idéia de crescimento integral em profundidade como missão da igreja observamos que esta deve ser: Conceitual, experiencial e orgânica. A profundidade conceitual implica “ampliar a própria compreensão da fé e da vida cristã e começar a correlacionar todos esses fatos, históricos e teológicos, acerca da pessoa de Cristo, com nossas respectivas situações vitais” (p. 93). O crescimento experiencial desafia-nos a conhecer a Cristo no serviço voluntário àqueles que estão a precisar – como Jesus que veio para servir e não para ser servido. O terceiro aspecto do crescimento em profundidade é orgânica que no leva ao desafio da koinonia – a comunhão que deve haver na comunidade, no “celebrar, compartilhar e orar em comum” (p.99). Costas insiste que esta “não é uma questão periférica” (p. 100).
Por último o crescimento integral deve ser em altura, o que aponta para o fato que o cristão é um povo para os demais. Costas afirma: “a fé cristã é pessoal; não é uma fé individualista” (p. 103). O crescimento em altura requer que a igreja se saiba como um povo que celebra a Cristo no meio dos povos; e é exatamente para isto que ela está aí, para ser uma comunidade sacramental que enquanto cultua busca produzir nossas realidades históricas no meio onde está inserida. Viver a fé em Cristo é cultuá-lo e isto quer dizer glorificar a Deus que por sua vez implica num testemunho eficaz no meio do povo. A liturgia cristã deve ser gerada num contexto de crescimento integral em altura para todos. Costas observa o exemplo de católicos e ortodoxos que “percebem com razão uma inter-relação muito perto entre culto e testemunho” (p. 110).


sexta-feira, 27 de abril de 2018

DAVI: A ARCA E A DANÇA


Sinto que fiquei devendo algo sobre o episódio de Davi dançando quando pesquisei sobre a dança de Miriam (reveja aqui). Então vai um pouco do que descubro quando estudo o texto.
A citação é de 2Sm 6:14-16 e é interessante observar o contexto em que é narrado o acontecido. Davi, ao assumir o reinado de Israel e conquistar Jerusalém a transformando em sua capital, entendeu que deveria trazer a Arca da Aliança para a cidade e assim legitimar o seu trono. Depois de contratempos, de idas e vindas, a Arca finalmente chega à cidade e Davi estava comemorando.
Entendido o contexto, permita-me ainda uma olhada na palavra usada no texto bíblico para descrever a atitude do rei. A palavra no original é מכרכר (mkrkr – de כרר – krr) que só aparece neste texto no hebraico do Antigo Testamento. A expressão pode ser traduzida como "saltar e dançar em círculo" e sua origem está ligada à descrição do ritual das cabras monteses que ficam pulando e rodopiando.
E o Google Translate sugere: "Ele chocalha".
Acho que esta explicação linguística já basta. Já deu para entender. Assim, vou propor uma parábola que pode ajudar a entender a dança de Davi. Como toda parábola, não se detenha nos detalhes da narrativa, apenas foque no principal.

Imagine seu time do coração.
Depois de um campeonato complicado, finalmente consegue avançar e chega às finais. Com certeza será um jogo duro e a possibilidade de derrota é grande.
A expectativa nos dias que antecedem ao grande jogo lhe consome. Adrenalina, ansiedade. Não se fala em outra coisa. Será que vai dar?
Chega o dia do jogo e você vai ao estádio se juntar a outros milhares de torcedores para apoiar e se preparar para a vitória – talvez até inesperada pelos críticos e comentaristas objetivos, mas desejada e incentivada pelos hinchas (essa gíria de uruguaios e portenhos cabe bem aqui!).
O jogo começa e vai se desenrolando – minuto a minuto – parece uma eternidade. Um gol somente e a alegria será completa. Mas o zero não sai do placar.
A torcida grita, incentiva, cobra, faz sua parte; mas nada…
Bola pra lá – bola pra cá – e o tempo passando. A tensão só aumenta.
O chute vai na trave. O goleiro tira em cima da linha. As chances dos dois lados se revesam.
Quem vai levar? Como vou aguentar?
Uuuuuu!!!! essa foi por pouco!
O primeiro tempo já foi – ainda tem o segundo.
A bola volta a rolar mas o sofrimento não termina. Com o andar do relógio, só aumenta.
E nada de gol.
Bola pra lá – bola pra cá – e o tempo passando.
15 / 25 / 35 / 45 minutos.
A última bola. Sobra no lateral que chuta pra frente alcançando o atacante. O último contra-ataque.
Cruzando os ponteiros, um chute certeiro – perfeito – inacreditável. A bola no ângulo, o goleiro se estica todo, ainda topa na bola. Mas a pelota entra estufando a rede.
Fim da tormenta. É CAMPEÃO!!!!
Você no meio da galera nem sabe o que fazer, tinha até sonhado e planejado aquele momento com cuidado várias vezes. Mas ali só cabe, gritar, pular, vibrar, rodopiar como uma cabra montesa. A alegria não pode ser contida.

Sempre penso que foi assim com Davi. A Arca ia na frente e ele pulando, saltando, rodando, gritando, celebrando, vibrando, comemorando (faltam gerúndios!).
A Arca da Aliança chegava triunfante a Jerusalém.
Mas sempre tem uma Mical que fica de longe só mandando meme com a hashtag #vergonha_alheia. E daí.
Sabe o que Davi postou de volta?
Foi diante do Senhor que eu dancei. Fica na sua. Foi por ele que celebrei. Oh glória!!! (#2Sm6:21)


terça-feira, 24 de abril de 2018

Atualizando a parábola


Num domingo de manhã, uma família de indivíduos desgrenhados e desleixados estava desamparada ao lado da autoestrada. Eles estavam obviamente aflitos. A mãe estava sentada numa mala já muito gasta, os cabelos despenteados, as roupas mal-arrumadas, com os olhos parecendo de vidro, segurando uma criancinha malcheirosa, com pouca roupa, que chorava em seus braços. O pai estava sem fazer a barba e usava um macacão. Ele tinha um olhar de desespero enquanto procurava dar conta de mais duas crianças. Ao lado deles, havia um automóvel já surrado até as últimas, que obviamente acabara de entregar os pontos.

Pela estrada afora, veio um automóvel guiado por um pastor local; estava a caminho da igreja. E embora o pai de família fizesse sinais frenéticos, o pastor não poderia deixar os membros de sua igreja esperando, de modo que fez de conta que não via a família.
Logo veio outro automóvel, e mais uma vez o pai acenou freneticamente. Mas o motorista era presidente do clube de negociantes do local e estava atrasado para uma reunião estadual dos presidentes do clube, numa cidade próxima. Ele também agiu como se nãos os tivesse visto, e manteve os olhos fitos na estrada em frente.

O próximo carro que passou era guiado pelo ateu local, que não media palavras contra a religião, e nunca pusera o pé numa igreja, em toda a sua vida. Quando viu a aflição da família, levou-a para o hotel local e pagou uma semana de estadia enquanto o pai procurasse um emprego. Além disso, pagou ao pai as despesas de aluguel de um carro para que pudesse procurar serviço, e deu à mãe dinheiro para comprar alimentos e roupas novas.

Essa versão atualizada da parábola contada por Jesus (leia a “versão original” em Lc 10:25-37), eu encontrei no livro: Entendes o que lês? Escrito por Gordon Fee & Douglas Stuart (em português foi publicado pela Vida Nova). Como gostei demais desta releitura e atualização, por que entendi que tanto respeita a ideia original da narrativa do Mestre como a aplica adequadamente, provocando reações similares aos primeiros ouvintes, eu a estou compartilhando.
Eu a intitularia: “A Parábola do bom ateu”.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

JESUS – um nome


Já tive a oportunidade de comentar em outras ocasiões que para o mundo antigo oriental o nome era muito mais que uma referência e distinção pessoal. O nome era parte da formação do ser: ou seja, você era o que seu nome indicava – e necessariamente indicava o que você tinha que ser.
A Bíblia foi escrita a partir desta perspectiva e sempre tenho que respeitá-la para poder chegar o mais próximo possível daquilo que os autores originais queria dizer.
Mas, apesar desta premissa que acato com reverência, eu sou ocidental e meu jeito de pensar é diferente. Então vou me dar a liberdade de ir ao texto por outro atalho.
O texto em questão é: … e lhe deu um nome que está acima de todo nome … (parte de Fl 2:9). É o chamado “Hino Cristológico”. Mas também não vou analisar. Só quero falar do nome: JESUS.
Para nós ocidentais, o nome é só um vocativo, uma referência e uma maneira de chamar alguém e diferenciá-lo entre os outros. Assim, no caso aqui com o nome de JESUS – um nome muito especial a quem podemos chamar e em quem podemos confiar.
Observe: basta lembrar que cada nome que conhecemos nos traz uma referência e uma lembrança que a associa. É desse jeito! O nome de alguém que amamos é sempre uma boa referência de uma boa lembrança: é doce falar. Por outro lado, o nome do chato só de pronunciar já é uma chatice. É claro, a referência e a lembrança faz o nome!
Como disse lá em cima, aqui há uma referência especial ao nome de Jesus. O nome do nosso amado nos faz lembrar daquilo que ele fez por nós, de todo o seu gesto de amor e cuidado que ele tem para conosco.
O nome de Jesus me traz a mente que ele, como um pai amoroso, tem me trazido para bem perto dele e me feito mais que servo e sim amigo (leia Jo 15:15).
Eu não sei como você se refere a ele, o quanto de respeito, intimidade ou distinção você atribui ao Senhor. Para mim, o nome de Jesus, quando pronuncio, é um pouco disso tudo: respeito, intimidade e distinção.
Respeito por que ele é o soberano dos reis da terra. Esse título foi atribuído a ele em Ap 1:5. E eu reverencio.
Intimidade por que ele está comigo, compartilhando da caminhada como prometeu em Mt 28:20. E eu aprecio a companhia.
Distinção por que somente ele é a expressão exata da divindade. Alie a expressão de Hb 1:3 com Cl 2:9. E eu reconheço.
Então é fácil entender e aceitar de bom grado quando na Bíblia diz que toda língua haverá de confessar o nome de Jesus. Com uma referência desta, sim vale muito a pena encher a boa para chamá-lo assim: JESUS.

E sobre o tema do nome, aí vai uma relação de postagens que publiquei:

terça-feira, 17 de abril de 2018

A MISSÃO COMO MOBILIZAÇÃO


Quarta parte das considerações sobre o livro Compromiso y Misión de Orlando Costas, publicado em 1979.

Um outro aspecto que Orlando Costas nos apresenta é a missão como mobilização. Enquanto que outros aspectos da missão produzem ênfases teológica (ou espiritualizantes) da missão, pensar na missão como mobilização traz à tona características mais gerenciais da missão da igreja e do seu compromisso com a vida e as pessoas que pretende alcançar na sua missão. Embora se compreenda que em última análise quem mobiliza a igreja é o Espírito Santo a idéia de mobilização implica numa organização dos recursos humanos e materiais de que se dispõe para o cumprimento da missão.
O projeto de Deus para o mundo é
Criar uma nova humanidade mediante a fé em seu filho Jesus Cristo e o poder do Espírito, produzir toda uma nova ordem de vida mediante seu governo redentor e justo por meio do Espírito e transformar totalmente a história e o cosmos pela ação escatológica do Espírito na segunda vinda de Cristo (p. 67).
O aspecto mobilizador da missão visa criar as condições objetivas para a concretização do projeto de Deus para o mundo. Isto implica inicialmente numa conscientização que desperta a consciência “evangelística do povo de Deus” (p. 64). O passo seguinte é a análise da situação vivencial do povo e da perspectiva histórica da comunidade que se almeja alcançar com a mensagem do evangelho. Daí planejamento, coordenação e avaliação completam o ciclo de cuidados como a mobilização da missão.
Costas observa que para garantir um processo eficaz de mobilização deve-se considerar a necessidade de haver uma transformação mental que retire da liderança a responsabilidade da missão transportando-a para o corpo da igreja; mas também é necessário uma ação sacrificial que reordene as prioridades e uma fé abarcante que faça-se crer que o Deus ressuscitou a Jesus Cristo dos mortos é o mesmo que chama a igreja a fazer discípulos.


sexta-feira, 13 de abril de 2018

DANÇANDO COM MIRIAM

O texto bíblico nos diz que logo depois de terem passado pelo sufoco do mar, enquanto saiam do Egito, Miriam – a irmã de Moisés e Arão – pegou um tamborim, reuniu as mulheres de Israel cantou e dançou (leia em Ex 15:20-21).
Sei que o tema da dança e do seu uso em nossas liturgias não é novo (para se ter uma ideia, Agostinho de Hipona no século IV já falava sobre a dança), então não quero ter a pretensão de apresentar nenhuma novidade, apenas investigar um pouco sobre como ele é tratado na Bíblia. Venha comigo.
Vou começar com a própria personagem que tomei como referência: Miriam (vou preferir esta grafia pois respeita melhor o hebraico). Estando a cronologia tradicional correta, a altura da narrativa, Miriam já não era nenhuma garotinha ou adolescente com hormônios e sensualidade em polvorosa, era uma anciã respeitada e líder da comunidade. Logo sua dança deve ser visualizada nestes termos.
Eu sei que a citação do Êxodo é bem curta, apenas dois versos, sendo um a transcrição do refrão que acompanhou a dança. Mas o texto não parece demonstrar exatamente um episódio de culto, como muitas vezes vai ser caraterizado no próprio Êxodo e em todo o Antigo Testamento. Ali não há sacrifício, não há oferta; apenas celebração.
É verdade que há outros relatos de bailado no AT: a filha de Jefté dançando também com tamborim pela vitória de seu pai frente os amonitas (em Jz 11:34); as garotas de Siló em momento de descontração (em Jz 21:21-23); e as mulheres de Israel enaltecendo as vitórias de Davi e humilhando Saul (em 1Sm 18:6-7). O problema é que nestes casos temos finais inesperados: a filha de Jefté morreu inocente; as garotas de Siló foram raptadas; e em Saul fez brotar um ciúme doentio por Davi.
No Novo Testamento, as poucas citações sobre dança (como no caso da filha de Herodias que seduziu o rei em Mt 14:6 ou na volta do filho pródigo em Lc 15:25) não ajudam em nada em nossa reflexão, já que se tratam de episódios alheios ao tema bíblico central de adoração e culto ao Senhor.
Então vamos voltar ao caso de Miriam. E para entender melhor, vou pedir ajuda ao hebraico do texto: ali a expressão usada é מחלה (mhlh) – aqui no plural. A origem do termo é o verbo חול (hwl) que pode ser traduzido como rodear, vibrar ou dançar em roda. E esta mesma palavra eu encontro no Sl 150:4.
Deixe-me propor uma tradução alternativa para o texto da dança de Miriam, sem nenhuma preocupação com o rigor literal, mas tentando expressar a ideia do texto:

Então a profetisa Miriam, a irmã de Arão,
respondeu ao cântico de Moisés pegando um tamborim
e chamando as mulheres de Israel
para uma roda de ciranda ao som da cantiga:
– Vamos cantar ao Senhor porque sua vitória foi grande.
Ele jogou no mar o cavalo e seu cavaleiro.

Assim eu entendo a alegria e a dança de Miriam. Mais que uma liturgia ou um momento solene, nem sequer uma coreografia pré-fixada e ensaiada. Uma grata celebração que invade a vida com tudo que ela tem de melhor, inclusive com uma gostosa e espontânea roda de ciranda.
E Deus é louvado em tudo.

(Na imagem lá em cima, reprodução da obra The Songs of Joy do francês James Tissot pintado em 1900. Atualmente exposto no The Jewish Musuem – New York)

terça-feira, 10 de abril de 2018

JESUS E A DIVINDADE – traduzindo Fl 2:5-6


Compartilho mais uma análise linguística, atendendo a consulta via zap (e para constar: sempre o faço com bastante alegria!).

Eis a análise (como todo zap deve ser, curto e objetivo):

Bom dia
Dei uma examinada na
palavra, o léxico sugere
“prêmio” como tradução. Mas
“produto do roubo” não é
impossível – pela raiz
etimológica da palavra
Vamos um pouco mais:
+ A palavra nesta forma
de substantivo só aparece aqui

+ O verbo correlato está
também em Mt 11:12 e ali o
sentido é “tomar posse” ou
“se apoderar”
+ A Chave Linguística
oferece como interpretação
para o fraseado: “Cristo não
usou a sua igualdade a Deus
a fim de adquirir ou ter
poder e domínio”
No versículo em si, o
negativo que precede
a palavra deve chamar a
atenção
Eu traduziria:
Cristo Jesus NÃO usou de
força ou qualquer outra
prerrogativa para se apegar
aos seus direitos de
divindade, mas...

E para quem precisa – ou gosta – da grafia helênica das palavras, aí vai:
=> ἁρπαγμός – o substantivo que só é encontrado em Fl 2:6.
=> ἁρπάζω – o verbo que aparece em Mt 11:12 (e mais outras treze vezes no NT grego).

Aproveito para compartilhar minha intenção: assim que a agenda (principalmente acadêmica) folgar um pouco, pretendo aprontar a análise do grego do Hino Cristológico de Fl 2:5-11 e compartilhar aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

MARTIN LUTHER KING JR. - o mundo não era digno dele


No dia 04 de abril de 1968, um tiro na cidade de Memphis/Tennessee/USA calou Martin Luther King Junior. Agora já se passaram cinquenta anos.
Na época não havia internet nem redes sociais e o mundo vivia não lá muito bem! Naquele dia, enquanto os lixeiros faziam greve, a NASA lançava o foguete Apolo 6 e o governo brasileiro endurecia o regime militar afrontando a democracia ao apreender revistas e livros; na sacada de um hotel tombava um Prêmio Nobel da Paz.
Quanto a mim, naquele dia ainda nem tinha completado o primeiro ano de vida e o nome do Pastor Luther King Jr. só se tornaria relevante anos bem depois.
Sei que não há necessidade de apontar aqui notas biográficas sobre ele, nem descrever o quandro sociopolítico ou religioso em que ele viveu e morreu – é fácil achar isso por aí. Vou então aproveitar a ocasião para compartilhar um pouco – só um pouco mesmo – de como o Dr. King Jr. me deixou um legado do qual tenho sincero respeito espiritual e moral.
Martin Luther King Junior era filho e neto de pastores batistas (sei o que é ser a terceira geração em ambiente eclesiástico!). Na adolescência teve seus questionamentos existenciais mas decidiu seguir a vocação e se formou em Teologia, assumindo a liderança de uma Igreja Batista em Montgomery/Alabama.
Foi do seu púlpito, então, que a mensagem que ele pregava começou a se fazer relevante para a comunidade e a nação – para um tempo como esse… (Et 4:14 – acho que o pastor entendeu o desafio!). E as leis americanas foram mudadas e a história reescrita.
Hoje M.L. King Jr. é citação obrigatória em qualquer trabalho sobre direitos civis – sobre o Século XX (até quando o assunto é Star Trek ele aparece!).
Quando entrei para o Seminário em 1985, eu já tinha ouvido falar de um pastor negro norte-americano que tinha ajudado a forjar a consciência humana moderna e que sua interpretação das verdades e ensinamentos cristãos o levaram à tarefa de transformar o mundo, mas foi lá nos anos acadêmicos que li pela primeira vez sobre seu sonho, e as implicações de seu chamado.
É impossível negar. Como não ser influenciado por um cristianismo desse!? Como não estabelecer como padrão um ministério igualmente relevante!? Como não dizer para todo mundo – com uma pitada de orgulho santo e inocência de aprendiz – que ela era pastor batista, assim como eu!?
O tempo passou, vi e li muita coisa, meus horizontes se diversificaram, notei a presença da herança daquele pregador na Itália, na Índia, e por aí afora. Há um rio caudaloso que o Deus que ama a todo mundo fez jorrar a partir da vida e ministério daquele homem e ele ainda traz suas águas para nos batizar.
Ser batista e ser pastor, nos moldes do Dr. Martin Luther King, é desafio por demais enorme. Requer conhecimento e envolvimento com a Palavra de Deus e intimidade com o Deus da Palavra – e isso deve resultar em comprometimento com o ser humano histórico, alvo supremo do amor divino, suas lutas e seus anseios. Homens e mulheres que caem pelo pecado, mas que devem ser resgatados pela nossa mensagem de paz – Bem-aventurados os pacificadores... (Mt 5:9)
E nem sei se conseguiremos imitá-lo – homens assim são únicos na história!!!
Mas de uma coisa eu não tenho dúvidas: Para Deus todas as coisas são possíveis (Mt 19:26).
Foi então que esta semana, conversando em casa, nos damos conta que os cinquenta anos da morte de Martin Luther King Junior podem ser descritos nas mesmas palavras atribuídas pelo autor de Hebreus sobre o patriarca Abel: Depois de morto ainda fala (Hb 11:4). Meio século depois, depois de morto, pela sua fé pugnante, ainda me fala.
Só que continuei lendo o capítulo bíblico e cheguei aos versos finais. E é fácil concluir que o texto sagrado – de maneira profética – já se referia exatamente à memória do Luther King: O mundo não era digno dele (Hb 11:38).
Dê-nos o Senhor honrar este legado cristão para sua glória.