terça-feira, 31 de outubro de 2017

CRONOLOGIA DA ÉPOCA DA REFORMA

Pensando neste 31 de outubro, quando celebramos os 500 anos da Reforma Protestante, resolvi atender a minha curiosidade e ver um pouco o contexto.
Os 100/150 anos que viram a Reforma Protestante acontecer na Europa podem ser muito bem descritos nas palavras de 2Tm 3:1 – tempos trabalhosos ou tempos terríveis.  Penso que, na história ocidental, não há outro momento em que as mudanças tenham sido tão radicais e profundas – nem os dias atuais!
Para entender um pouco esta tese, acompanhe a lista a seguir.  Tomo a liberdade de voltar a 1415 para contextualizar, mas foi, com certeza, a partir dos finais do século XV e os séculos XVI e XVII que o mundo do Ocidente mudou.


1415 – João Huss é queimado em Constança
– Têm início as grandes navegações portuguesas com a conquista de Ceuta por D. João I
1439 – O alemão Johannes Gutenberg cria o método gráfico por tipo móveis (imprensa)
1442 – O Concílio Ecumênico de Florença acata o Cânon Alexandrino (Deuterocanônicos)
1453 – O sultão Maomé II conquista Constantinopla pondo fim ao Império Romano do Oriente
1455 – A Bula Romanus Pontifex reconhece o direito da coroa portuguesa sobre os mares do sul
1474 – Isabel de Castela é coroada rainha da Espanha
1476 – Morre Vlad III, príncipe da Valáquia que ficaria conhecido Vlad, o Empalador
1478 – Instala-se oficialmente o Tribunal do Santo Inquérito (Inquisição) na Espanha
1483 – Nasce Martinho Lutero em Eisleben / Alemanha (10/11)
1487/88 – O português Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas (Cabo da Boa Esperança)
1489 – Primeira epidemia de tifo na Europa flagela a Espanha
1492 – O genovês Cristóvão Colombo chega à América sob ordens dos reis católicos espanhóis
– Conquista de Granada – fim da Guerra de Granada e da Reconquista cristã espanhola
– O Decreto de Alhambra ordena a expulsão dos judeus da Espanha
– E.A. de Nebrija publica uma gramática espanhola – primeira neolatina na Europa
1492/93 – São concluídas as pinturas da Capela Sistina em Roma
1494 – Assinado o Tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha com o aval do Papa
Invasão da Itália por Carlos VIII de França
1497 – O português D. Manoel I manda sequestrar crianças judias para serem criadas como cristãs
1498 – Concluída a pintura do afresco A Última Ceia por Leonardo da Vinci em Milão
– É enforcado o dominicano Savanarola, considerado precursor da reforma
– Em  Mesina / Itália se registra um terremoto de 4,6 graus na Escala Richter
1499 – Michelangelo esculpe a obra Pietá – colocada na Basílica de São Pedro em Roma
– O Cardeal Cisneros funda a Universidade de Alcalá de Henares / Espanha
– Américo Vespúcio publica suas Cartas Geográficas
1500 – O português Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil (22/04)
1501 – O italiano Ottaviano Petrucci imprime pela primeira vez uma partitura musical
– Por decreto espanhol, os mulçumanos são obrigados a se converterem ao cristianismo
1504 – O português Pedro Reinel publica o primeiro mapa mundi com indicação de latitude
– Morre Isabel, a Católica, regente de Castela
1505 – Lutero ingressa no Convento dos Agostinhos
– Aparição da Virgem na Espanha dá origem à adoração mariana da Virgem do Caminho
1506 – Da Vinci pinta o quadro Monalisa – La Gioconda
– É criada a Guarda Suíça Pontifícia como braço militar do papado
– No Massacre de Lisboa, centenas de judeus são mortos
1507 – Lutero é sagrado sacerdote
– Fim da Guerra Civil de Navarra (iniciada em 1451) unificando os reinos de Castela e Aragão
1508 – Lutero torna-se professor na Universidade de Wittenberg / Alemanha
– Um terremoto de sete grau na Escala Richter acontece na Escócia
1509 – Nasce João Calvino em Noyon / França (10/07) – reformador na França e Suíça
– Erasmo de Roterdã publica O Elogio da Loucura
– Terremoto e tsumani em Istambul deixa pelo menos 10 mil mortos
1510/11 – Viagem de Lutero a Roma
1511 – Um terremoto arrasa o centro da Europa deixa cerca de dez mil mortos
1512/17 – V Concílio de Latrão
1513 – O italiano Nicolau Maquiavel publica sua obra O Príncipe
– João de Lourenço de Médici assume o papado (09/03) adotando o nome de Leão X
1514 – Publica-se a primeira edição da Bíblia Poliglota Complutense
1516 – Erasmo de Roterdã publica uma edição crítica no Novo Testamento Grego
– Tomas Mores publica seu livro Utopia
1517 – O Papa institue a Ordem dos Frades Menores – franciscanos (29/05)
– Lutero afixa as 95 teses na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg (31/10)
1518 – Lutero comparece perante o Cardeal Caetano
1519 – Na disputa de Leipzig, Lutero e Karl von Miltitz enfrentam J. Eck
– Carlos V assume o Sacro Império Romano-Germânico
1519/22 – Fernão de Magalhães faz a primeira circunavegação da Terra
1520 – Lutero escreve 3 livros fundamentais da Reforma e queima a bula de excomunhão (10/12)
1521 – Lutero é excomungado pela Bula Decet Romanum Pontificem do Papa Leão X (03/01)
– Lutero comparece diante do Imperador no parlamento, em Worms (17 e 18/04)
1521/22 – Lutero traduz o Novo Testamento para o alemão em Wartburg;
1522 – Lutero volta a Wittenberg e abafa o fanatismo iconoclasta
– 1ª edição do livro Rechnung auff der linihen vnd federn, do matemático alemão Adam Ries
– Terremoto na ilha de São Miguel provoca a destruição de Vila Franca do Campo / Açores
1523 – Morre Franz v. Sickingem: fim da revolta dos cavaleiros
– Um terremoto da Romênia atinge oito graus na escala Richter
– Eclipse Solar duplo de Vênus com a lua (15/08)
1524 – Convenção católica de Regensburg / Bavária / Alemanha
– Cerca de vinte mil londrinos fogem da cidade temendo uma profecia sobre o fim do mundo
1525 – Lutero se casa com Catharina von Bora
– É fundada a primeira comunidade anabatista em Zurique / Suíça (25/01)
– Tropas espanholas a mando de Carlos V derrotam os franceses e capturam o rei Francisco I
– William Tyndale publica uma tradução do Novo Testamento para o Inglês
1526 – É criada a Torgauer Bund, uma união príncipes alemães contra os católicos
– A Dieta de Speyer / Alemanha decreta a tolerância pelas doutrinas de Lutero
1527 – No Saque de Roma o imperador Carlos V derrota as tropas francesas e papais
– O Protestantismo é introduzido na Suécia
1528 – Paracelso é expulso da Universidade da Basiléia 
1529 – Martin Lutero escreve o Catecismo Menor e Maior
– Acontece o Colóquio de Marburg sobre a Santa Ceia (contra Zwinglio)
– O Parlamento de Speyer assina um protesto solene contra a Igreja Católica e a sua
    Contra-Reforma, donde se forja o termo Protestantismo.
1530 – Sob ordem do Imperador Carlos V é assinada a Confissão de Augsburg (25/06)
– Dois dias depois, os católicos respondem com a Refutação Pontifícia
– Formação da Ordem dos Cavaleiros de Malta pelo Papa Clemente VIII
– Uma inundação mata cerca de cem mil pessoas na Holanda
1531Henrique VIII da Inglaterra se declara o chefe supremo da igreja inglesa
– Fernando I de Habsburgo se torna Rei dos Romanos.
1532 – Criação da Liga Smalkalde para lutar contra os católicos ligados ao imperador Carlos V
– Celebrada a Paz religiosa de Nürnberg entre católicos e protestantes alemães
– O Sudário de Turim é seriamente danificado por um incêndio
1533 – Casamento de Henrique VIII de Inglaterra com Ana Bolena (25/01)
– Henrique VIII é excomungado pelo Papa Clemente VII (11/07)
– Ivan, o terrível torna-se Grão-Príncipe de Moscou (03/12)
1534 – A Coroa Portuguesa institui o sistema de capitanias hereditárias no Brasil
– Lutero publica sua tradução do Antigo Testamento
1536 – Henrique VIII e o Parlamento inglês separam a Igreja da Inglaterra da de Roma
1437 – O Papa Paulo III assina a bula pontifícia Sublimis Deus, onde declara que os habitantes indígenas do Novo Mundo são seres racionais detentores de uma alma
1539 – O rei Francisco declara o francês a língua oficial da França.
1540 – A Companhia de Jesus, criada por Ignácio de Loyola em 1534, é reconhecida pelo Papa
1543 – Copérnico publica De revolutionibus orbium coelestium propondo o heliocentrismo
1545 – Começa a Contra-reforma católica com o Concílio de Trento.
1546 – Morre Martinho Lutero em Eisleben (18/02)
1547 – Nasce Miguel de Cervantes Saavedra, escritor espanhol autor do Dom Quixote
1549 – É publicado na Inglaterra o Livro de Oração Comum (em inglês: Book of Common Prayer)
1555 – Nostradamus começa a publicar As Profecias
1562 – Conflitos religiosos na França matam cerca de mil hugenotes
1572 – Acontece o massacre de protestantes na Noite de São Bartolomeu na França (24/08)
– O português Luiz de Camões publica Os Lusíadas
1564 – Nasce Galileu Galilei
1569 – Primeira publicação da Bíblia em Espanhol por Casiodoro de Reina
1577 – Assina-se a Fórmula da Concórdia, unificando o Luteranismo


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM NOVO ZAQUEU

É verdade que é impossível alguém se encontrar com Jesus e não ser tocado e transformado!  Na Bíblia não faltam exemplos desta verdade. 
Há aqueles que não saíram agraciados do encontro, como foi o caso do homem rico que procurou Jesus querendo saber como herdar o reino (contado em Mc 10:17) e, por não aceitar a proposta de Jesus, chegou esperançoso e saiu triste.  Mas até esta narrativa só comprova a tese: É impossível alguém se encontrar com Jesus e não ser tocado e transformado!
Não quero me deter nesta história infeliz.  Bem melhor observar o outro lado – uma transformação para melhor, bem melhor.
Veja a história de Zaqueu que ficou conhecida pelo inusitado de seu ato de subir numa árvore para ver Jesus passar (em Lc 19:1-10) e teve sua vida maravilhosamente transformada.
Detalhando um pouco o encontro com Zaqueu posso detectar que pelo menos em quatro áreas de sua vida houve transformação.
Tudo começou com o arrependimento interior.  Sua vida pessoal e íntima mudou.  A verdadeira transformação que Jesus oferece começa de dentro para fora: começa mudando o coração do ser humano. 
O profeta Ezequiel, falando à nação caída de Israel, anunciou que o próprio Senhor daria um coração e um espírito novo (Ez 36:26). 
No encontro com Jesus nosso interior é completamente refeito à imagem de Deus (leia ainda 2Co 3:18).
Uma segunda transformação experimentada por Zaqueu foi em sua família.  Aquele homem atendeu o desafio do Mestre e levou Jesus para sua casa.  Havendo transformação em minha vida, logo eu a amplio para aqueles que estão mais próximos de mim. 
Foi isto que Josué determinou em seu coração ao decidir servir ao Senhor junto com sua família (já é conhecido o verso de Js 24:15). 
A vida nova que Cristo traz contagia a todos ao redor.
Há ainda a transformação da vida social.  O encontro com Cristo fez com que Zaqueu decidisse entregar parte de sua fortuna aos pobres.  Se antes ele era ambicioso e arrogante, depois de ser transformado Zaqueu se tornou misericordioso. 
O profeta Oséias ouviu instrução neste sentido para ser passada ao povo (Os 6:6). 
Jesus sabe que vivo em sociedade e pode me transformar para ser instrumento dele para abençoar esta sociedade (lembre-se do sal e luz falados por Jesus em Mt 5:13-16).
E finalmente Jesus transformou o destino de Zaqueu abrindo-lhe as portas da vida eterna.  Ninguém pode mudar o destino eterno do ser humano além de Jesus, e ele o faz de graça por nos amar. 
É o próprio Jesus Cristo quem afirma esta dádiva (compare os versos de Jo 10:28 com 15:13).  Por maior que seja o pecador, Paulo observa que também é alvo do amor de Cristo (está escrito em Rm 5:6-8). 
E ainda mais um detalhe: é bom saber que há festa nos céus quando acontece tal transformação (como Jesus observa em Lc 15:7).
Por se encontrar com Jesus, Zaqueu mudou – houve transformação.  Daquele encontro nasceu um novo Zaqueu.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A FESTA DE PENTECOSTE

O calendário litúrgico de Israel incluía três grandes festas: a Páscoa celebrada do dia 14 de abib (o primeiro mês do calendário deles), festa caseira que celebrava a libertação do Egito – Dt 16:1-8; a Festa da Colheita ou das Semanas celebrada 50 dias depois da Páscoa (sete semanas) era uma festa de origem agrícola – Dt 16:9-12; e a Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas celebrada entre os dias 15 e 22 de etanim (em nosso calendário mais ou menos pelo meio de outubro) – Dt 16:13-17.
O ponto em comum entre as festas era a celebração pela intervenção divina e a ordenação de nunca comparecer diante do Senhor de mãos vazias (leia em Êx 34:20).
A grande Festa das Semanas – que em língua grega passou a ser conhecida pelo nome de Pentecoste (literalmente: cinquenta dias), como também as outras duas festas, tinha um caráter civil e social e uma face religiosa.  Em seu aspecto social, Pentecoste era a celebração da primeira colheita de trigo e da cevada e todo o seu desenrolar estava ligado ao ciclo das atividades agrícolas.  Nela se celebravam a origem divina da vida e a bondade do Senhor em ter dado provisões em mais um ano, fazendo com que a terra desse o seu fruto (leia Êx 34:22).
Ainda se deve ressaltar que nesta festa um caráter abrangente da fé e do estilo de vida israelita deveria ser observado (leia com cuidado Dt 16:11-12).
Como celebração religiosa, a festa de Pentecoste era alegre e solene, deveria ser dedicada exclusivamente ao Senhor e durante seu transcorrer não deveria haver trabalho secular (era uma santa convocação como é dito Lv 23:21).  Outro aspecto importante que foi agregado à Festa das Semanas foi a celebração pela entrega da lei divina no Sinai.  Além da alegria pelo dom da terra e da provisão dada por Deus – e até como uma extensão desta dádiva – celebrava-se o cuidado do Senhor em estabelecer estatutos e decretos para que Israel fosse a nação santa (veja que embora esta associação seja tardia, sua indicação pode estar contida na instrução de Dt 16:12).
Havia no primeiro século, resultado de exílios, diásporas e outros processos migratórios, filhos de Israel que, longe de Jerusalém, mantinham suas tradições cultuais mas já não falavam a língua nativa nem mantinham intactos os costumes culturais.
Quanto ao ano em que ocorreram a ressurreição de Cristo e o cumprimento da promessa, como acontecia todo ano, mais que nas outras duas grandes festas, a celebração de Pentecoste atraiu para Jerusalém uma multidão de judeus, seus descendentes e convertidos a fé judaica.  A cidade deveria estar lotada de peregrinos que vieram participar da celebração da colheita e da entrega da Lei.
Foi neste contexto que aconteceu a descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus que aguardavam o cumprimento da promessa, reunidos em Jerusalém.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

PALAVRAS PARA CULTO


O tema da adoração cristã, o culto e seus correlatos, sempre me chamou a atenção.  Com isso em mente, resolvi fazer uma lista rápida de algumas palavras que me vieram agora à mente relacionadas ao assunto – e seus respectivos significados.  Sei que alguns termos podem carecer de definição mais técnica e que também a lista pode ser completada com outros termos relevantes ou importantes, mas vai aí o que lembrei:

Adoração – Culto, reverência e veneração devida a Deus.
Culto – Na Teologia cristã: adoração devida a Deus e a forma como esta adoração é executada.  Daí toda celebração a Deus.
Doulia – Na Teologia oficial Católica é a reverência prestada aos santos.  O termo deriva da palavra grega δουλεία.  A palavra aparece no texto grego do NT significando escravidão ou sujeição.
Homilia – Transliteração do grego: ὁμιλία que significa literalmente associação, companhia.  Diz-se das pregações feitas em estilo coloquial.
Litania – Do grego clássico λιτανία significando oração, súplica (nesta forma ausente do NT grego).  O termo passou a ser usado como referência às orações e prédicas litúrgicas.
Liturgia – A palavra grega λειτουργεία, no uso greco-romano, denotava vários tipos de serviço público ou cívico, cúltico e secular.  Os escritores do NT adotaram essa terminologia à compreensão cristã da responsabilidade perante Deus e da solicitude generosa pelos seres humanos.  Daí: executar um serviço religioso.  Hoje, em geral é usado como sinônimo de ordem ou estrutura de culto.
Louvor – No Dicionário Aurélio, elogio, gabo, glorificação e exaltação.  Neste sentido, a Teologia reconhece como sendo destinado exclusivamente a Deus.
Missa – Ato pelo qual a Igreja Católica Romana comemora a Ceia do Senhor.  Por extensão, toda a liturgia que a envolve.  A palavra provém do latim: mitto, missum que significa enviar ou mandar dizer.
Oração – Súplica religiosa.  Na Teologia cristã é toda palavra voltada para Deus através de Jesus Cristo.
Oráculo – Resposta dada pela divindade a quem o consulta e, por extensão, palavra ou sentença infalível.
Prédica – Sermão, discurso, oração, mensagem.
Querigma – Termo transliterado do grego κήρυγμα que significa proclamação – também aparece grafado Kerygma.  Na Teologia cristã, o querigma é a mensagem que a igreja tem a transmitir ao mundo, que consiste no anúncio da morte e ressurreição de Jesus Cristo, bem como suas implicações para vida quotidiana do ser humano.
Reverência – O ato ou efeito de reverenciar ou venerar.  Uma espécie de respeito às coisas sagradas.  Reverendo seria aquele que merece reverência.
Reza – Prece, ou oração repetida, usada no contexto litúrgico.
Sacramento – Em Teologia é aquilo que confere graça pela sua ministração.  Grupos cristãos diferentes o reconhecem em quantidades variadas, mas sempre implica na mediação da graça outorgada por Cristo em ações simbólicas.  No latim clássico o termo sacramentum significaria caução ou dinheiro depositado em juízo para salvaguardar processos civis.
Sacrifício – Tudo que é oferecido à divindade.  No NT, Cristo é considerado o sacrifício definitivo para Deus.  O termo deriva da aglutinação latina: sacrus + oficius, serviço sagrado.  
Sermão – Diz-se das prédicas, geralmente pregadas em púlpitos, com objetivos religiosos.  Por extensão, qualquer discurso religioso.
Veneração – O ato ou efeito de ter reverência, respeito, admiração ou consideração.  Venerável é, então, aquele que é digno de veneração.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

FICAI EM JERUSALÉM

A instrução que lemos em At 1:4 é para os discípulos ficarem em Jerusalém aguardando o cumprimento da promessa.  Por esta indicação podemos notar que esta cidade foi o ponto de partida do movimento cristão após a morte e ressurreição de Jesus.  Ali os seguidores do Mestre ficaram e a partir daquele ambiente urbano o movimento começou a se expandir.
Para entender melhor o contexto onde os fatos aconteceram, vejamos um pouco a descrição da cidade de Jerusalém no primeiro século cristão.  Jerusalém, a fortaleza dos Jebuseus, foi conquistada por Davi no século X a.C. que a transformou em sua capital (confira em 2Sm 4:6-15).  A partir dai, a cidade passou a ser tanto o principal centro político como cultural e religioso da nação – e o foi por muitos anos, inclusive na época do NT.
No século I, a cidade possuía cerca de 50 mil habitantes fixos (podendo quadruplicar nas festas regulares) e, economicamente, sua população podia ser dividida em dois grupos: uma minoria que vivia do serviço estatal e religioso: governantes, funcionários e legiões estrangeiras ali estabelecidos e o clero em geral; e a maioria empobrecida.
Enquanto os primeiros viviam regaladamente em casas com relativo conforto, o povo humilde se amontoava em casas em geral de madeira, barro ou palha sem nenhuma infra-estrutura sanitária.
A base da alimentação era o pão, feito a partir da farinha de trigo ou cevada, mas podia conter, entre outras, misturas de azeite, hortelã, cominho, lentilha, pepino, cebola, mel e canela; além de leite, queijo e carne principalmente de cabra e ovelha; frutas e vinho.
O mercado público ficava fora das muralhas e o comércio era baseado em trocas de mercadorias com a população local ou negócios a dinheiro com os estrangeiros.  As principais ocupações masculinas urbanas eram comerciais e fabris (artesãos) e à mulher cabia apenas a administração doméstica e a criação de filhos – era indispensável ser mãe.
Politicamente, Jerusalém vivia sob o domínio romano que a administrava através de um procurador – Pôncio Pilatos exerceu esta função entre os anos 26 e 36 d.C.  – e de reis vassalos – a dinastia de Herodes – que exercia seu poder através da força e da truculência do exército romano sempre presente nas ruas da cidade.
Quanto à vida religiosa na cidade de Jerusalém, esta era naturalmente dominada pela existência e centralidade do Templo (reconstruído por Neemias e reformado por Herodes) que, mesmo não tendo o brilho do original de Salomão ainda exercia seu papel de referência do culto judeu.  Podemos afirmar que tudo em Jerusalém, de certa forma, tinha a ver com o Templo, sua administração, seu funcionamento e preservação.
Além do Templo e seu serviço, alguns grupos religiosos dominavam a cena na cidade: os saduceus ligados diretamente aos sacerdotes; os fariseus que pregavam uma reforma socialmente progressista, mas espiritualmente legalista; os essênios de orientação mística e práticas monásticas; além de grupos pequenos como os zelotes, os nazireus, os sicários entre outros.  É bom citar que tais grupos competiam entre si pelo controle e primazia da tradição da fé judaica e aceitação popular.
Foi num ambiente assim que Cristo foi crucificado, a igreja foi formada e iniciou seu ministério.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

ROSA DE SARON – alguns apontamentos

Andei fazendo algumas anotações na intenção de fazer um artigo sobre a expressão Rosa de Saron (é melhor mesmo com "n" para respeitar o hebraico).  Ela é usada em variados contextos em nossos ambientes e círculos, muitos deles se referindo a Jesus Cristo.
O artigo ainda não ficou pronto – no sentido de um texto final e organizado – mas vou adiantar e compartilhar um pouco do que pesquisei e no fim me dar o direito a apenas um breve comentário.  Talvez em outro tempo saia o artigo completo.
Vamos lá, começando pela imagem da flor (esta, a foto, eu colhi na internet):


A referência em geral é ao texto de Ct 2:1 que diz na NVI: Sou uma rosa de Sarom, um lírio dos vales.  Gosto mais da Tradução Brasileira de 1917: Sou um narciso de Sarom, uma açucena dos vales. 
A citação da Rosa de Saron com este fraseado, só aparece aqui em toda a Bíblia.

Em hebraico, o versículo consta de apenas cinco palavras:
1.  Eu – pronome (אני) – o verbo ser está implícito.
2.  Flor – substantivo comum (חבצלת) – no AT, esta palavra aparece somente aqui e em Is 35:1.
3.  Saron – nome de lugar (השרון) – citado por exemplo em Js 12:12; 1Cr 5:16 e Is 65:10.
4.  Lírio – substantivo comum (שושנת) – para os experts em língua hebraica: aqui na forma do construto.  Esta expressão nomeia alguns Salmos como o 45 e o 69 por exemplo e ainda aparece outras sete vezes no próprio Cantares.
5.  Vales – substantivo (העמקים) – no plural.  Acidente geográfico bastante citado no AT, como no Sl 84:6 e em Jr 49:4.

Sobre as flores, veja o que o sítio Wikipedia diz:

hibisco-da-síria, rosa-de-sarom ou mimo (Hibiscus syriacus) é um arbusto lenhoso com muitas fibras, que pode chegar aos 3 metros de altura, originário da China e partes da Ásia.  Pode ser usado com muito sucesso na arborização urbana, tanto pela ornamentabilidade como pelo forte aroma exalado às noites quentes.  A Coreia do Sul adotou o hibisco-da-síria como flor nacional.
Convallaria majalis, conhecida pelo nome comum de lírio-do-vale, é uma espécie de erva nativa da Europa da família das convalariáceas.  Tais lírios chegam a medir até 30 cm.  Também são conhecidos pelos nomes populares de campainhas, círio-de-nossa-senhora, convalária, flor-de-maio, lírio-convale, mugué, muguet, muguete e muguete-do-vale.  Embora venenosa, é cultivada como ornamental por suas flores que surgem no mês de maio.

Sobre o vale de Saron, o mesmo Wikipedia diz:

É a metade norte da planície costeira de Israel (...).  Esta planície situa-se entre o Mar Mediterrâneo a oeste e as colinas de Samaria (...) na orla da cidade atual de Tel Aviv (...).  Nos tempos antigos, a planície foi particularmente fértil e populosa (...).  Na época de Salomão, o vale de Saron era fértil e produzia belas e abundantes flores

Bem, deixando de lado esta informações iniciais, vamos ler o texto.

Que é a amada/noiva que se compara com uma flor do vale do Saron é bastante claro na citação – apesar da canção que conheci na voz de Luiz de Carvalho se referir a Jesus Cristo. 
No jogo de metáforas e poesia da canção conjugal que o livro dos Cantares de Salomão (algumas bem estranhas para nossa compreensão contemporânea!) a amada de apresenta linda, exuberante, singular e cheirosa para seu amado – e assim fecunda o desejo mútuo.
E mesmo que se leia como uma parábola entre Jesus / o noivo e a igreja / a noiva, o narciso de Saron, a açucena dos vales é a amada que se apresenta ataviada e adornada para suas núpcias (encontro eco na palavra de Ap 21:2).


Estes são alguns apontamentos iniciais que colhi, espero depois construir uma reflexão que nos edifique.  Mas se você quiser contribuir, vai enriquecer a todos nós.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A GRAÇA NÃO É DE GRAÇA

Falar sobre o Cordeiro de Deus em sua relação com a graça é trazer para o cerne de nossa fé e nossa teologia o tema central do Apocalipse – que é em última análise o livro mais festivo e mais exuberante de todo o NT.

Digno é o Cordeiro
que foi morto
de receber poder, riqueza,
sabedoria, força,
honra, glória e louvor!
(Ap 5:12)

Mas, o que implica para nosso cristianismo cotidiano a centralização no Cordeiro de Deus?  Pense comigo:
(1) Ter o Cordeiro de Deus como centro de nossa doutrina nos faz saber e crer que ELE tira o pecado do mundo (João Batista apresentou Jesus assim em Jo 1:29).  Sendo que o Cordeiro tira todo o pecado então não há porque se guardar mais mágoas ou traumas em nossa existência.  Quem na sua vida ainda se sente preso a dores espirituais ou emocionais do passado e do presente é por que não experimentou o que o Cordeiro realmente significa.
(2) A presença do Cordeiro entre nós é a afirmação de que Deus desejou ser humano.  Ao se fazer história o Eterno quis ser como cada um de nós, vivendo nossa história e experimentando nosso cotidiano (veja que Jesus ensinou algo parecido na oração modelo quando pediu que viesse a nós o seu Reino em Mt 6:10).  Querer fazer de fieis semideuses ou super-homens é desprezar o Cordeiro de Deus e sua obra em nossa vida cristã.
(3) Na obra do Cordeiro, e em especial no seu sacrifício, estão demonstrados simultaneamente o amor e a justiça de Deus.  Não há – e não pode haver – antagonismo entre ambos os aspectos da divindade.  Na cruz, o Cordeiro foi a expressão máxima do amor e da justiça manifesta de Deus.  Pregar um esquecendo-se ou outro, seja qual for a argumentação, é esvaziar o Cordeiro e torná-lo incoerente.
(4) E finalmente trazer o Cordeiro para o centro de nossa fé é reafirmar que o céu é mais que um pressuposto teórico ou escape psicológico, é a certeza de que ele é um lugar acolhedor e seguro – é a casa do Pai – e o lugar onde cumpriremos nosso destino eterno (veja as palavras de Jesus em Jo 14:1).
Com certeza a Graça não é de graça, custou o sangue precioso do Cordeiro, mas foi exatamente por este sangue que hoje vivemos sob a tutela da graça.

(A partir de uma reflexão publicada no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 25 de junho de 2009)