terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Juízes em Israel

A fase na história de Israel que corresponde ao período entre a chegada e conquista da terra prometida e o estabelecimento dos reis é conhecido como o Período dos Juízes de Israel.  Na narrativa bíblica está descrito no livro que leva o mesmo nome – Juízes – entrando pela narrativa do primeiro livro de Samuel.  Esta é uma relação do juízes que lideraram os israelitas neste período:


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A GRAÇA – de Lucado a Yancey

Aproveitei uns dias de folga no final do ano para atualizar a leitura.  Na minha biblioteca caseira sempre há alguns volumes que acrescento ao longo da caminhada e que por razões diversas vão sendo preteridos.  Assim foi com o texto de Max Lucado: "Graça".  Não lembro exatamente quando ele chegou, mas nunca foi lido, até este fim-de-ano.  Assim, eu o peguei e li quase de uma tomada só.
O tema em si já é naturalmente empolgante: A GRAÇA.  Entre as declarações que embasaram a Reforma Protestante nos séculos XVI e XVII uma delas afirmava: sola gratia – somente a graça.  A nossa fé e toda a nossa formulação cristã estão firme e profundamente alicerçadas na crença que somente a graça divina, manifesta em Cristo, conforme relatada nas páginas sagradas, é o que pode aliviar o peso que sobrecarrega nossa alma e pode nos abrir os portais eternos de volta à casa Paterna.
E assim Lucado começa a descrevê-la: A graça é a melhor ideia de Deus.  O pecado e a culpa sempre pesam sobre nós, corroendo nossa vida e a transformando numa antecipação do inferno.  Esse é o problema central da humanidade.  E é exatamente para resolver tal problema que a graça se manifestou em Cristo Jesus.  E nesta equação entre pecado, culpa, castigo e amor divino é que a graça se manifesta.  Como colocar tudo isso numa mesma fórmula?  Lucado assim resolve:
Deus não ignorou seus pecados, para que não suceda que concorde com eles.  Ele não puniu você, para que não suceda dele destruir você.  Em vez disso, ele encontrou uma maneira de punir o pecado e preservar o pecador.  Jesus assumiu sua punição e Deus deu a você o crédito pela perfeição de Jesus.
E então é por conta desta ideia maravilhosa que Lucado chega à conclusão de seu livro com a seguinte proposta:
Deixe-o fazer o trabalho dele.  Deixe que a graça triunfe sobre sua história de prisão, crítica e consciência culpada.  Veja a si mesmo pelo que você é – projeto pessoal de reconstrução de Deus.

Então, voltando ao meu roteiro de leituras de fim-de-ano, resolvi ler mais uma vez o texto de Philip Yancey sobre o mesmo tema.  O título em inglês é What's So Amazing About Grace? (em português: Maravilhosa Graça).  Em geral, raramente leio mais de uma vez qualquer título literário, mas com certeza o texto de Yancey merece releituras.  E aproveitei o embalo do trabalho de Lucado para voltar às suas páginas.
É certo que o próprio Yancey se reconhece nos seguintes termos:
Para dizer a verdade, mal provei da graça em toda a sua intensidade, tenho dispensado menos do que recebi e não sou, de modo nenhum, um especialista no assunto.
Mas ao se propor a apoiar-se mais em histórias do que em silogismos preferindo transmitir graça em vez de explicá-la, entendo que ele foi não somente feliz em expor este conceito fundamental ao cristianismo (penso no duplo sentido da expressão fundamental), como também relevante em abordar temas nevrálgicos em nosso sistema de crenças e eclesiologia.
Narrando histórias da ficção, fatos pessoais e outros de conhecimento público, Yancey apresenta um quadro onde o escândalo da graça esbofeteia nossa falsa segurança religiosa e nos desafia ao aceitamento incondicional daquilo que somente Cristo pode realizar a partir de seu sacrifício único.
E os temas delicados se sucedem: alegria, severidade, correção, piedade, imperfeição, perdão. Mas também assuntos concretos com os quais precisamos lidar – e nem sempre a igreja sabe o que fazer com eles: racismo, holocausto, fundamentalismo, homossexualismo, álcool, vícios, corrupção, adultério, política.  Temas que carecem de ser olhados com o devido prisma que somente a graça pode nos fornecer. 
E Yancey nos coloca incomodamente alguns desses desafios.  Denuncia uma fé cristã que se cristalizou ao longo de eras excluindo do seu cerne a preciosa graça e deixou com que a não-graça dominasse o mundo no qual vivemos – mesmo no chamado ocidente cristão.  Veja suas palavras:
A fé religiosa – com todos os seus problemas, apesar de sua enlouquecedora tendência para copiar a não-graça – sobrevive porque sentimos a beleza luminosa do dom imerecido que vem em momentos inesperados de fora.  Recusando-nos a crer que nossas vidas de culpa e vergonha não nos levam a nada a não ser à aniquilação, esperamos, sem nenhuma esperança, um outro lugar dirigido por regras diferentes.  Crescemos famintos de amor e, de maneira tão profunda que não conseguimos expressar, ansiamos por que o nosso Criador nos ame.
Então é tal graça que nos parece por vezes incoerente, absurda, injusta – e somente ela – que nos leva a Deus e nos ensina que Deus nos ama pelo que Ele é, e não pelo que nós somos.  Categorias de merecimento não valem nada.  E nada há que eu possa fazer que produza amor maior ou aceitação da parte de Deus, da mesma forma que nenhuma atitude minha – ou falta dela – que afaste a graça de mim.  Deus simplesmente me ama em Cristo Jesus, e isso basta.
É por isso que Yancey insiste em que a igreja seja aquilo para a qual foi idealizada: que a igreja se torne uma cultura nutridora dessa graça.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Grandes Princípios Batistas – A SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO

Este item amplia a liberdade da igreja.  Ela não está subordinada ao Estado e ela e o Estado têm esferas diferentes.  A igreja é cidadã deste mundo e sujeita-se a leis de justiça e de bom senso.  Mas deve dizer: “Mas Pedro e João, respondendo, lhes disseram: Julgai vós se é justo diante de Deus ouvir-nos antes a vós do que a Deus” (At 4.19).  A lealdade última da igreja é para com Deus e sua Palavra.  Sua pátria mais amada é a celestial.  O Estado também está sob a lei da justiça divina.  No Antigo Testamento, Iahweh escolheu Israel, mas é Senhor de todas as nações e toda a terra.  Devemos nos lembrar disto.
Na Escandinávia, os pastores luteranos são pagos pelo Estado.  No Brasil, constantemente, verbas públicas são usadas para recuperar igrejas católicas, sob desculpa de patrimônio arquitetônico ou cultural.  Mas são lugares de cultos.  Isto é contra nosso princípio de um Estado leigo, que não deve investir em nenhuma religião nem beneficiar nenhum culto.
Diferentemente de grupos anabatistas e outros radicais do século 16, os batistas não questionam o Estado por ser Estado.  Mas não o sacralizam.  O Apocalipse mostra o Cordeiro contra um Estado que deseja ser Deus.  Nosso compromisso é com a justiça, com a honestidade e com a dignidade humana.  Podemos nos rejubilar de termos em nossa história um Prêmio Nobel da Paz, o Pr.  Martin Luther King Jr, assim agraciado pela sua luta pelos direitos dos negros norte-americanos.  Mas, quando a turma de formandos do Seminário do Sul, em 1968, o tomou como seu paraninfo, alguns dos missionários americanos que lecionavam no Seminário, bem como parte da cúpula batista brasileira, ficaram indignados com os alunos.  Sintonizados com o regime militar, achavam que King era um comunista, um agitador.  Que miopia!  E perda de senso de história!
Uma igreja batista não é da direita nem da esquerda nem mesmo do centro.  É de cima.  Seus valores são espirituais e celestiais.  Uma igreja batista faz parte da igreja de Cristo, que é multirracial, multi-étnica, multigeográfica.  Sou brasileiro e não me envergonho disto.  Digo como Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa”, ou seja, tenho uma identidade lingüística.  Amo meu idioma, dizendo como Olavo Bilac: “em que da voz materna ouvi: ‘meu filho’”.  Foi na língua portuguesa, no Brasil, que ouvi minha mãe, Nelya Werdan, uma filha de suíços, me chamar de “filho”.  Foi neste país, o Brasil, que duas famílias estrangeiras, os portugueses Gomes Coelho e os suíços Werdan Suhett me deram origem.  Mas, mais que brasileiro e descendente de portugueses e suíços, sou cidadão do reino do céu.  Os princípios do reino celestial devem reger minha vida.
Deus não é brasileiro nem tem nacionalidade alguma.  Devemos ser patriotas, mas devemos discordar do Estado quando este invade área que não é sua.  Não lhe compete nos ditar fé ou perspectivas religiosas.  Pagamos impostos, servimos ao exército, damos nossa parcela para este país.  Mas não o sacralizamos nem o deificamos.  O culto ao Estado produziu a aberração chamada “Cristãos Alemães”, que queria uma igreja germânica, de raça pura.  Mas não admitimos a ingerência do Estado em nossa vida.  Nem transigimos nossos padrões por causa do Estado.  As casas de prostituição pagam taxas e são estabelecidas legalmente, mas a prostituição é pecado.  O que é legal nem sempre é moral.  O casamento de homossexuais pode ser tolerado civilmente, mas é pecado.  Uma batista deve dizer como Lutero: sua consciência é cativa da Palavra de Deus.
Somos cidadãos como todos os demais e não devemos esperar tratamento especial.  É errado igrejas batistas pedirem ônibus às prefeituras e órgãos públicos para fazerem piqueniques.  Se não têm dinheiro para alugar um ônibus, não andem de ônibus! Vão a pé ou não façam piquenique! Se nos incomoda ver dinheiro público sendo usado para levantar estátuas a Iemanjá em cidades da orla marítima, deveria nos incomodar também o uso de dinheiro público para monumentos à Bíblia.  O poder civil não pode patrocinar nenhuma religião! Nem a nossa!
Nunca fomos subversivos.  Mas não podemos ser coniventes com um Estado desumano, corrupto, desvalorizador do homem.  Nosso norte são os valores da Palavra de Deus.  Olhamos para eles e seguimos nossa jornada.  O que se desvia deles, isso recriminamos.  Não é se nos beneficia, mas se é um princípio bíblico.

Extraído de uma palestra preparada pelo Pr.  Isaltino Gomes Coelho Filho (1948-2013) para um congresso doutrinário em Altamira, Pará, novembro de 2009.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

NO DIA EM QUE O SOL PAROU

A história do dia em que o sol parou, lá no Antigo Testamento, está entre aquelas mais lembradas das narrativas bíblicas.  Mas para entender melhor o episódio deixe-me inicialmente colocá-la num contexto.  A conquista dos filhos de Israel da terra prometida no século XV a.C. aconteceu em meio a batalhas sangrentas.  Josué liderou o povo como um militar e sempre os animou a tomar a iniciativa e enfrentar seus inimigos dispostos à vitória.
O que ocorreu e foi narrado no capítulo 10 do livro de Josué não segue a mesma linha de acontecimentos: liderados por Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, uma coligação se levantou e desafiou os gibeonitas.  Para defender seus aliados, Josué juntou seus melhores homens e partiu para a guerra.
E antes de chegar no inusitado da história – o evento do sol parado – já podemos aprender algo.
A primeira lição é de solidariedade.  Os reis se juntaram para atacar Gibeon.  E para defender seu aliado, Israel se lançou à batalha.  Tudo começa quando o povo de Deus é capaz de sentir a dor e o problema do outro e se envolver procurando se somar na resolução dos mesmos.
Textos não faltam neste sentido: no AT o Sl 133 fala em vivermos em união e no NT Jesus declara que nossa identidade só aparecerá quando amarmos uns aos outros (está em Jo 13:35).  Tudo indica que Josué e seus homens realmente anteciparam a instrução paulina de compartilhar o choro e a alegria do outro (como é dito em Rm 12:15).
A segunda lição vem da atitude de Josué em reunir seus melhores homens (veja Js 10:7).  Para enfrentar as batalhas que sobrevêm contra nós – principalmente as batalhas espirituais – temos de colocar o que temos de melhor a disposição do nosso General.
Aqui lembro ainda das palavras de Jesus que fala em Mt 6:33 em dar o primeiro lugar ao Reino de Deus.  Também não posso me esquecer da advertência de Jeremias quanto ao fazer a obra de Senhor de modo negligente (leia em Jr 48:10).
É nesse momento que o surpreendente acontece.  Quando o povo de Deus se coloca com amor e disposição, o próprio Senhor faz aquilo que não nos é possível (lembre de Mt 19:26).  Duas expressões do verso 14 nos dão o tom da ação divina.
Em primeiro lugar é dito que o Senhor atendeu a um homem.  O que está claro aqui é que quando um servo fiel entra em oração, Deus atende.  Tiago ainda observa o mesmo sobre o profeta Elias que, mesmo sendo humano como nós, Deus o atendeu segurando a chuva.
A outra expressão é que o Senhor lutava por Israel.  O nosso Deus vai a nossa frente e luta por nós.  É o caso da confiança de Neemias ao incentivar o povo na reconstrução do muro (confira Ne 4:20).
É isso que acontece: Deus manipula as leis naturais para agir poderosamente em favor dos seus filhos quando estes se unem com dedicação, amor e zelo, e quando entram na batalha em oração e confiança (compare Gn 8:22 com Js 10:13 e veja do que Deus é capaz!).
Com ousadia, nos entreguemos à batalha espiritual, certos de que o Senhor vai fazer o sol parar, até que nossos inimigos se ponham em fuga e a vitória esteja conquistada para o seu louvor.

(De ibsolnascente.blogspot.com em 23 de outubro de 2009)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O que a Bíblia NÃO diz sobre anjos

A figura dos anjos está ampla e variadamente misturada em nossa tradição cristã.  E, embora não haja nenhum capítulo que trate especificamente de sua descrição, eles são citados na Bíblia com freqüência.  É verdade também que aqui e ali acrescentamos algum "conhecimento" herdado de outras tradições não-cristãs, fazendo com que a noção destes seres se tornasse mística, quase folclórica ou mitológica.
Veja na relação a seguir sete coisas que a Bíblia não diz sobre os anjos, mas que muita gente acredita e prega por aí:

1. Anjos com asas – por não haver na Bíblia nenhuma menção detalhada da aparência dos anjos, tudo o que podemos saber é por associação ou imaginação.  Em geral eles são citados apenas como varão.  Mas nunca se fala em asas
A confusão se dá porque figuras como querubins (em Ez 10:5 por exemplo) ou serafins (em Is 6:2) aparecem descritos com asas.  Mas aí já é outra conversa.  Sobre isso, veja o ponto #3 logo abaixo.

2. Jacó lutou com um anjo – esse é clássico.  A citação é da luta de Jacó no vale do rio Jaboque em Gn 32:22-31.  O texto diz que veio um homem que se pôs a lutar com ele até o amanhecer (Gn 32:24 NVI). 
O problema aqui é a expressão na língua original: enquanto os versos Gn 32:1 e 28:12 falam em anjos (no hebraico מלאכי – de מלאך), o versículo da luta se refere a um varão (no hebraico איש – mesmo termo encontrado em Gn 6:9).  Ou seja, literalmente Jacó lutou com um homem.  O mais é interpretação ou dedução.
É verdade que quando seu nome foi mudado, a explicação foi porque ele lutou com Deus e com homens e venceu (Gn 32:28 NVI).  Só que ainda neste versículo não se fala em anjos, pois a luta foi com Deus e com homens.

3. Hierarquia dos anjos – como disse, não há capítulo bíblico que trata de maneira explícita – ou didática – dos anjos.  Eles simplesmente são citados sem maiores detalhes ou preocupação.  Assim, a Bíblia não faz nenhuma referência à hierarquia.   E como se chegou a isso?  O primeiro escritor cristão a tratar do tema foi Clemente de Alexandria no século II e depois se consolidando com um texto intitulado "A Hierarquia Celeste" (em latim: De Coelesti Hierarchia) atribuído a Dionísio Aeropagita.
Ausente nas páginas bíblicas, a verdade contudo é que não há uma uniformidade dos comentadores sobre o tema – há hipóteses variadas.  Os títulos mais utilizados, a partir do texto bíblico, para atribuir hierarquia são: Querubim (כרוב) – citado na Bíblia como guardião do Éden em Gn 3:24 e colocados sobre o propiciatório em Ex 25:20.  Serafim (שרף) – cuja única citação é Is 6:2.  E Arcanjo (do grego ἀρχάγγελος) – que aparece nos textos de 1Ts 4:16 e Jd 9.  Outros termos comuns são: principados, potestades e por aí vai...  e, como disse, não há consenso.
Eu sei que há outros textos que podem indicar uma hierarquia, como por exemplo Js 5:13-15.  Nesta passagem, Josué olhou para cima e viu um homem em pé (Js 5:13 NVI – no hebraico איש).  É certo que ele se apresenta com um título que indica uma patente militar: comandante do exército do Senhor (no hebraico שר־צבא־יהוה), mas daí uma classificação hierárquica angelical é extrapolação.

4. Anjo da morte – aqui também a citação bíblica é dúbia.  Costumeiramente a primeira referência é ao evento da Páscoa quando do Êxodo dos Filhos de Israel do Egito.  No texto é dito que o Senhor não permitirá que o destruidor entre na casa de vocês para matá-los (Ex 12:23 NVI – no hebraico משחית de שחת).  A mesma expressão vai aparecer em 2Sm 24:16 / 1Cr 21:15.  E embora a referência direta a um anjo executando tal serviço só apareça nos textos históricos, em nenhum deles a citação é explícita como "anjo da morte". 
Há outras duas passagens que merecem citação: em Pv 16:14 aparece a expressão literal anjo da morte (מלאכי־מות) mas está claramente usada num sentido conotativo, figurado e poético.  Citá-lo aqui como um ser literal é forçar bastante o texto.  O outro texto é Jó 33:22 (onde a palavra hebraica é ממתים) e também o senso poético deve prevalecer.  No mais é só inferência.
No NT o texto de Ap 9:11 cita Abaddon (em hebraico אבדון) que em grego é Apollion (Απολλύων) como sendo o anjo do abismo.  Penso que ainda aqui anjo da morte não cabe.
Na tradição judaica extra-bíblica existem figuras de anjos da morte – ou malditos – como Azrael ou Samael.  Mas por ser fora do texto canônico, então vou poupar o comentário.

5. Anjo da guarda – sobre este tema eu já comentei em outro post.  Lá eu analisei o texto de Mt 18:10 e entendi, a partir do próprio texto e contexto, que a figura singular e sobrenatural de um anjo destacado para cuidar exclusivamente de alguém não tem base (se quiser ler mais, dê uma olhada no link). 
Outro texto que já vi sendo usado para argumentar sobre tais anjos é Ex 23:20.  Também entendo que a conclusão deve se aproximar da que chegamos em relação ao texto evangélico.

6. Criancinhas se tornam anjos – essa é simplesmente sem nexo.  Confesso que tenho dificuldade até de encontrar qualquer texto que faça alguma ligação, mesmo tênue.  Mesmo citações como a de Mt 19:14 – "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas" – não diz nada sobre criancinhas que morrem virarem anjinhos.
A cultura popular criou a crença de recém-nascidos que morrem são levados para o céu como anjos.  Isso é útil para consolar os enlutados, mas nada tem de verdade bíblica nem cristã.  Gente é gente e anjo é anjo.

7. Anjos têm filhos – sobre isso também já comentei quando postei sobre os gigantes citados em Gn 6:4 (este é o link se quiser reler).  Ainda considere:
Lá no texto do Gênesis pode-se ler que quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos.  Bem, tratar os filhos de Deus (no hebraico האלהים בני) como anjos, além de não fazer sentido em todo o contexto bíblico, distorce a exegese do texto.

* Quanto ao que eu posso compreender da própria Bíblia a cerca do papel dos anjos, vou citar o que escrevi comentando Mateus 18:

Em toda a Bíblia os anjos assistem na sala do trono para o louvar (cito por exemplo o Sl 103:20), servem e obedecem só a ele e são enviados pelo próprio Deus para missões específicas, principalmente quando é preciso agir em favor dos seus pupilos (lembre de Dn 6:22). 


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

COMO A NEVE

Eu, como bom nordestino que sou, nunca vi a neve e só a conheço por fotos ou imagens, mas tenho que confessar – sem empolgação é claro – que nesta época de Natal o tema seja recorrente em muitas decorações, discursos e ambientes – certamente reflexos das festividades do Hemisfério Norte onde o frio impera nesta época do ano.
Agora, o que vem a minha mente quando o tema é neve são os textos de Is 1:18 e Sl 51:7 – ambos maravilhosos!  Continuo sem conhecê-la, porém vejo o quanto tais textos me falam ao coração.  Na profecia de Isaías, depois de advertir a nação rebelde, o Senhor promete que embora seus pecados sejam vermelhos, eles se tornarão como a neve.  É a promessa divina.  É o salmista Davi, por sua vez, que me mostra de maneira bem prática como isso se dá.  Vejamos:
O motivo que leva Davi a escrever o Salmo é o pecado cometido por ele e denunciado por Natã, o profeta.  Adultério e assassinato pesavam sobre sua alma e isso a sujava e a deixava encardida como a escarlate – cor do sangue derramado.  O que fazer então?  O que fazer diante do pecado cometido e da culpa sentida?  No Salmo, Davi reconhece, confessa e suplica.
Sei que sou pecador – diz o rei no Sl 51:5.  É preciso reconhecer que o pecado é inerente à vida humana  e ninguém está livre desta mácula (lembro que Paulo também falou sobre isso em Rm 3:23).
Mas o problema não está neste pecado primordial herdado.  Davi sabe que o pecado é pessoal e assim deve ser encarado: contra ti, só contra ti, pequei (é o verso do Sl 51:4).  É esta consciência de que meu pecado antes de tudo ofende a Deus que deixa a minha alma pesada e apodrecida.
Tudo começa a mudar quando há uma verdadeira confissão perante o Senhor.  Vejo o mesmo Davi reconhecer que enquanto o pecado não é confessado a mão do Senhor pesa sobre a nossa vida e o corpo definha (leio isso no Sl 32:3-4).  É bom também acrescentar que quem confessa seu pecado alcançará sempre a misericórdia (como dito em Pv 28:13).
Sentindo a alma manchada e amargurada e tendo confessado o pecado que o perseguia (dito no Sl 51:3), Davi então suplica pela graça divina.  Só Deus pode levar a alma e livrar da culpa (veja os versos do Sl 51:7 e 14).  Mas também só Deus pode criar um espírito novo e devolver a alegria da salvação (veja os versos do Sl 51:10 e 12).  E é isto que está contido na oração do salmista.
Somente quem já experimentou a alma lavada e testemunhou o que é ter o pecado sujo como o sangue transformado em limpo como a neve pode glorificar ao Senhor com a certeza de que o que agrada a Deus é um espírito e um coração quebrantado e contrito (Davi disse no Sl 51:17).  Por isso, ao sentir-se livre da imundície do pecado ele agora poderia voltar a oferecer um culto digno ao Senhor.
Hoje quando falo na neve, quero trazer a minha lembrança – e celebrar com isso – a realidade de que também já tive os meus pecados, que enlameavam minha alma, lavados pelo sangue do Cordeiro tornando-me como a neve e, com certeza, estarei incluído entre os bem-aventurados que tomarão da árvore da vida no grande Dia do Senhor (sei disso através de Ap 22:14).  Glória a Cristo por isso!

(Saiu pela primeira vez no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 18/12/2009)

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Os Grandes Princípios Batistas – A AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL

Este é outro princípio batista inegociável.  E é onde devo contextualizar um pouco mais porque temos problemas sérios nesta área.  Entendo que vivemos um tempo bem diferente do vivido há 20 anos.  As estruturas denominacionais passam por um processo de desgaste junto às igrejas.  Sua imagem está afetada.  Isto é conseqüência até mesmo de um dado cultural, a pós-modernidade, momento social em que vivemos e em que as estruturas são questionadas e deixadas de lado, e o individualismo é cada vez mais acentuado.  Para piorar, em algumas de nossas instituições denominacionais houve má gerência, e isto atingiu as demais.  Em outras, houve açodamento de pessoas que confundiram as coisas e conseguiram, com suas atitudes, criar uma postura refratária por parte das igrejas.  Zelosas pelo seu trabalho, algumas pessoas começaram a pressionar as igrejas e a reclamar das não colaboradoras, muitas vezes insinuando não serem batistas ou serem desengajadas da doutrina batista por não contribuírem financeiramente para a instituição.  Em outras vezes, a luta por poder, nos bastidores, em nada difere da luta que se vê no mundo.  Esta confusão, para mim, se deu porque se ignorou o fato de que a estrutura é serva das igrejas e existe em função delas e não o oposto.  Nem mesmo chamo nossas instituições de denominação porque denominação, no meu entendimento, são as igrejas e as doutrinas que elas sustentam.  Chamo de estrutura e as vejo como para-eclesiásticas, ou seja, elas existem para caminharem ao lado das igrejas.  Por isso, entendo que as estruturas precisam rever seus métodos e seu discurso.  Não devem cobrar das igrejas, mas mostrar sua competência, sua administração com lisura, e como estão levando a obra das igrejas à frente.  Parece-me surrealista que alguns vejam as igrejas como adversárias da denominação.  Elas são a denominação!
As igrejas têm diminuído sua colaboração para a estrutura, tanto em finanças como em envolvimento.  Por isso, vez por outra se lêem artigos em que alguém reclama da autonomia da igreja local e critica as que não estão cerrando fileiras com a estrutura.  Seria bom fazer com que as igrejas todas assumissem o programa da estrutura e bem como os ônus decorrentes da funcionalização do programa.
A autonomia leva à pulverização, mas a centralização leva à uniformidade nos erros.  Cito um trecho de um batista insuspeito, José dos Reis Pereira.  Poucos batistas foram tão engajados na obra como ele.  Certa vez, em uma carta, ele me disse que estava com 24 atribuições denominacionais.  Reis Pereira foi uma vela que se gastou dos dois lados.  Eis o texto: “Os Batistas Gerais decaíram à proporção em que uma forte tendência centralizadora triunfava entre eles.  Vitoriosa essa tendência a autonomia das igrejas locais foi sacrificada.  E é um outro princípio batista, esse da autonomia da igreja local” (Breve História dos Batistas, p.  81).  Centralizar o poder e fortalecer o centro não melhorará a situação.  Reis diz que a história já provou isso.  Deve-se fortalecer e melhorar a base, que são as igrejas.  Se estas forem fortes e sadias, a denominação será forte e sadia.
Não se pode negar a autonomia da igreja local, até mesmo porque o Novo Testamento só mostra uma instituição, que é ela, e desconhece as que criamos.  O que criamos não é antibíblico, mas é abíblico.  Não é errado, mas existe para funcionalizar e vitalizar a igreja local.  O que devemos fazer é mostrar que as igrejas do Novo Testamento viviam em cooperação, que se ajudavam, como Paulo mostra em suas cartas.  Autonomia e cooperação não são antônimos.  As igrejas se engajavam em projetos comuns, mas tudo partia delas.  Até mesmo o envio de missionários.  Os missionários eram enviados pelas igrejas e eram missionários das igrejas e nunca enviados por uma instituição.  Sei que os tempos são outros, as circunstâncias culturais são outras, mas me parece que muitas vezes olhamos pelo lado errado do binóculo.  A pedra de toque do processo batista é a igreja local.  Somos congregacionais desde nossa origem: o governo pertence à congregação local e ela não está sujeita a nenhuma outra instância.  E cooperação, sim.  Mas sacrifício ou abandono da autonomia da igreja local, nunca!
Esta doutrina nos permite declarar que a maior e mais rica igreja batista vale tanto quanto a menor e mais pobre.  E o que se faz em nome dos batistas precisa do aval moral das igrejas para ter credibilidade entre elas.  Não se trata apenas de autonomia da igreja local, mas de sua soberania.  As estruturas precisam se compatibilizar com as igrejas.  Até mesmo por um fator muito simples: precisam delas para sobreviver.

Extraído de uma palestra preparada pelo Pr.  Isaltino Gomes Coelho Filho (1948-2013) para um congresso doutrinário em Altamira, Pará, novembro de 2009.