terça-feira, 17 de outubro de 2017

PALAVRAS PARA CULTO


O tema da adoração cristã, o culto e seus correlatos, sempre me chamou a atenção.  Com isso em mente, resolvi fazer uma lista rápida de algumas palavras que me vieram agora à mente relacionadas ao assunto – e seus respectivos significados.  Sei que alguns termos podem carecer de definição mais técnica e que também a lista pode ser completada com outros termos relevantes ou importantes, mas vai aí o que lembrei:

Adoração – Culto, reverência e veneração devida a Deus.
Culto – Na Teologia cristã: adoração devida a Deus e a forma como esta adoração é executada.  Daí toda celebração a Deus.
Doulia – Na Teologia oficial Católica é a reverência prestada aos santos.  O termo deriva da palavra grega δουλεία.  A palavra aparece no texto grego do NT significando escravidão ou sujeição.
Homilia – Transliteração do grego: ὁμιλία que significa literalmente associação, companhia.  Diz-se das pregações feitas em estilo coloquial.
Litania – Do grego clássico λιτανία significando oração, súplica (nesta forma ausente do NT grego).  O termo passou a ser usado como referência às orações e prédicas litúrgicas.
Liturgia – A palavra grega λειτουργεία, no uso greco-romano, denotava vários tipos de serviço público ou cívico, cúltico e secular.  Os escritores do NT adotaram essa terminologia à compreensão cristã da responsabilidade perante Deus e da solicitude generosa pelos seres humanos.  Daí: executar um serviço religioso.  Hoje, em geral é usado como sinônimo de ordem ou estrutura de culto.
Louvor – No Dicionário Aurélio, elogio, gabo, glorificação e exaltação.  Neste sentido, a Teologia reconhece como sendo destinado exclusivamente a Deus.
Missa – Ato pelo qual a Igreja Católica Romana comemora a Ceia do Senhor.  Por extensão, toda a liturgia que a envolve.  A palavra provém do latim: mitto, missum que significa enviar ou mandar dizer.
Oração – Súplica religiosa.  Na Teologia cristã é toda palavra voltada para Deus através de Jesus Cristo.
Oráculo – Resposta dada pela divindade a quem o consulta e, por extensão, palavra ou sentença infalível.
Prédica – Sermão, discurso, oração, mensagem.
Querigma – Termo transliterado do grego κήρυγμα que significa proclamação – também aparece grafado Kerygma.  Na Teologia cristã, o querigma é a mensagem que a igreja tem a transmitir ao mundo, que consiste no anúncio da morte e ressurreição de Jesus Cristo, bem como suas implicações para vida quotidiana do ser humano.
Reverência – O ato ou efeito de reverenciar ou venerar.  Uma espécie de respeito às coisas sagradas.  Reverendo seria aquele que merece reverência.
Reza – Prece, ou oração repetida, usada no contexto litúrgico.
Sacramento – Em Teologia é aquilo que confere graça pela sua ministração.  Grupos cristãos diferentes o reconhecem em quantidades variadas, mas sempre implica na mediação da graça outorgada por Cristo em ações simbólicas.  No latim clássico o termo sacramentum significaria caução ou dinheiro depositado em juízo para salvaguardar processos civis.
Sacrifício – Tudo que é oferecido à divindade.  No NT, Cristo é considerado o sacrifício definitivo para Deus.  O termo deriva da aglutinação latina: sacrus + oficius, serviço sagrado.  
Sermão – Diz-se das prédicas, geralmente pregadas em púlpitos, com objetivos religiosos.  Por extensão, qualquer discurso religioso.
Veneração – O ato ou efeito de ter reverência, respeito, admiração ou consideração.  Venerável é, então, aquele que é digno de veneração.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

FICAI EM JERUSALÉM

A instrução que lemos em At 1:4 é para os discípulos ficarem em Jerusalém aguardando o cumprimento da promessa.  Por esta indicação podemos notar que esta cidade foi o ponto de partida do movimento cristão após a morte e ressurreição de Jesus.  Ali os seguidores do Mestre ficaram e a partir daquele ambiente urbano o movimento começou a se expandir.
Para entender melhor o contexto onde os fatos aconteceram, vejamos um pouco a descrição da cidade de Jerusalém no primeiro século cristão.  Jerusalém, a fortaleza dos Jebuseus, foi conquistada por Davi no século X a.C. que a transformou em sua capital (confira em 2Sm 4:6-15).  A partir dai, a cidade passou a ser tanto o principal centro político como cultural e religioso da nação – e o foi por muitos anos, inclusive na época do NT.
No século I, a cidade possuía cerca de 50 mil habitantes fixos (podendo quadruplicar nas festas regulares) e, economicamente, sua população podia ser dividida em dois grupos: uma minoria que vivia do serviço estatal e religioso: governantes, funcionários e legiões estrangeiras ali estabelecidos e o clero em geral; e a maioria empobrecida.
Enquanto os primeiros viviam regaladamente em casas com relativo conforto, o povo humilde se amontoava em casas em geral de madeira, barro ou palha sem nenhuma infra-estrutura sanitária.
A base da alimentação era o pão, feito a partir da farinha de trigo ou cevada, mas podia conter, entre outras, misturas de azeite, hortelã, cominho, lentilha, pepino, cebola, mel e canela; além de leite, queijo e carne principalmente de cabra e ovelha; frutas e vinho.
O mercado público ficava fora das muralhas e o comércio era baseado em trocas de mercadorias com a população local ou negócios a dinheiro com os estrangeiros.  As principais ocupações masculinas urbanas eram comerciais e fabris (artesãos) e à mulher cabia apenas a administração doméstica e a criação de filhos – era indispensável ser mãe.
Politicamente, Jerusalém vivia sob o domínio romano que a administrava através de um procurador – Pôncio Pilatos exerceu esta função entre os anos 26 e 36 d.C.  – e de reis vassalos – a dinastia de Herodes – que exercia seu poder através da força e da truculência do exército romano sempre presente nas ruas da cidade.
Quanto à vida religiosa na cidade de Jerusalém, esta era naturalmente dominada pela existência e centralidade do Templo (reconstruído por Neemias e reformado por Herodes) que, mesmo não tendo o brilho do original de Salomão ainda exercia seu papel de referência do culto judeu.  Podemos afirmar que tudo em Jerusalém, de certa forma, tinha a ver com o Templo, sua administração, seu funcionamento e preservação.
Além do Templo e seu serviço, alguns grupos religiosos dominavam a cena na cidade: os saduceus ligados diretamente aos sacerdotes; os fariseus que pregavam uma reforma socialmente progressista, mas espiritualmente legalista; os essênios de orientação mística e práticas monásticas; além de grupos pequenos como os zelotes, os nazireus, os sicários entre outros.  É bom citar que tais grupos competiam entre si pelo controle e primazia da tradição da fé judaica e aceitação popular.
Foi num ambiente assim que Cristo foi crucificado, a igreja foi formada e iniciou seu ministério.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

ROSA DE SARON – alguns apontamentos

Andei fazendo algumas anotações na intenção de fazer um artigo sobre a expressão Rosa de Saron (é melhor mesmo com "n" para respeitar o hebraico).  Ela é usada em variados contextos em nossos ambientes e círculos, muitos deles se referindo a Jesus Cristo.
O artigo ainda não ficou pronto – no sentido de um texto final e organizado – mas vou adiantar e compartilhar um pouco do que pesquisei e no fim me dar o direito a apenas um breve comentário.  Talvez em outro tempo saia o artigo completo.
Vamos lá, começando pela imagem da flor (esta, a foto, eu colhi na internet):


A referência em geral é ao texto de Ct 2:1 que diz na NVI: Sou uma rosa de Sarom, um lírio dos vales.  Gosto mais da Tradução Brasileira de 1917: Sou um narciso de Sarom, uma açucena dos vales. 
A citação da Rosa de Saron com este fraseado, só aparece aqui em toda a Bíblia.

Em hebraico, o versículo consta de apenas cinco palavras:
1.  Eu – pronome (אני) – o verbo ser está implícito.
2.  Flor – substantivo comum (חבצלת) – no AT, esta palavra aparece somente aqui e em Is 35:1.
3.  Saron – nome de lugar (השרון) – citado por exemplo em Js 12:12; 1Cr 5:16 e Is 65:10.
4.  Lírio – substantivo comum (שושנת) – para os experts em língua hebraica: aqui na forma do construto.  Esta expressão nomeia alguns Salmos como o 45 e o 69 por exemplo e ainda aparece outras sete vezes no próprio Cantares.
5.  Vales – substantivo (העמקים) – no plural.  Acidente geográfico bastante citado no AT, como no Sl 84:6 e em Jr 49:4.

Sobre as flores, veja o que o sítio Wikipedia diz:

hibisco-da-síria, rosa-de-sarom ou mimo (Hibiscus syriacus) é um arbusto lenhoso com muitas fibras, que pode chegar aos 3 metros de altura, originário da China e partes da Ásia.  Pode ser usado com muito sucesso na arborização urbana, tanto pela ornamentabilidade como pelo forte aroma exalado às noites quentes.  A Coreia do Sul adotou o hibisco-da-síria como flor nacional.
Convallaria majalis, conhecida pelo nome comum de lírio-do-vale, é uma espécie de erva nativa da Europa da família das convalariáceas.  Tais lírios chegam a medir até 30 cm.  Também são conhecidos pelos nomes populares de campainhas, círio-de-nossa-senhora, convalária, flor-de-maio, lírio-convale, mugué, muguet, muguete e muguete-do-vale.  Embora venenosa, é cultivada como ornamental por suas flores que surgem no mês de maio.

Sobre o vale de Saron, o mesmo Wikipedia diz:

É a metade norte da planície costeira de Israel (...).  Esta planície situa-se entre o Mar Mediterrâneo a oeste e as colinas de Samaria (...) na orla da cidade atual de Tel Aviv (...).  Nos tempos antigos, a planície foi particularmente fértil e populosa (...).  Na época de Salomão, o vale de Saron era fértil e produzia belas e abundantes flores

Bem, deixando de lado esta informações iniciais, vamos ler o texto.

Que é a amada/noiva que se compara com uma flor do vale do Saron é bastante claro na citação – apesar da canção que conheci na voz de Luiz de Carvalho se referir a Jesus Cristo. 
No jogo de metáforas e poesia da canção conjugal que o livro dos Cantares de Salomão (algumas bem estranhas para nossa compreensão contemporânea!) a amada de apresenta linda, exuberante, singular e cheirosa para seu amado – e assim fecunda o desejo mútuo.
E mesmo que se leia como uma parábola entre Jesus / o noivo e a igreja / a noiva, o narciso de Saron, a açucena dos vales é a amada que se apresenta ataviada e adornada para suas núpcias (encontro eco na palavra de Ap 21:2).


Estes são alguns apontamentos iniciais que colhi, espero depois construir uma reflexão que nos edifique.  Mas se você quiser contribuir, vai enriquecer a todos nós.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A GRAÇA NÃO É DE GRAÇA

Falar sobre o Cordeiro de Deus em sua relação com a graça é trazer para o cerne de nossa fé e nossa teologia o tema central do Apocalipse – que é em última análise o livro mais festivo e mais exuberante de todo o NT.

Digno é o Cordeiro
que foi morto
de receber poder, riqueza,
sabedoria, força,
honra, glória e louvor!
(Ap 5:12)

Mas, o que implica para nosso cristianismo cotidiano a centralização no Cordeiro de Deus?  Pense comigo:
(1) Ter o Cordeiro de Deus como centro de nossa doutrina nos faz saber e crer que ELE tira o pecado do mundo (João Batista apresentou Jesus assim em Jo 1:29).  Sendo que o Cordeiro tira todo o pecado então não há porque se guardar mais mágoas ou traumas em nossa existência.  Quem na sua vida ainda se sente preso a dores espirituais ou emocionais do passado e do presente é por que não experimentou o que o Cordeiro realmente significa.
(2) A presença do Cordeiro entre nós é a afirmação de que Deus desejou ser humano.  Ao se fazer história o Eterno quis ser como cada um de nós, vivendo nossa história e experimentando nosso cotidiano (veja que Jesus ensinou algo parecido na oração modelo quando pediu que viesse a nós o seu Reino em Mt 6:10).  Querer fazer de fieis semideuses ou super-homens é desprezar o Cordeiro de Deus e sua obra em nossa vida cristã.
(3) Na obra do Cordeiro, e em especial no seu sacrifício, estão demonstrados simultaneamente o amor e a justiça de Deus.  Não há – e não pode haver – antagonismo entre ambos os aspectos da divindade.  Na cruz, o Cordeiro foi a expressão máxima do amor e da justiça manifesta de Deus.  Pregar um esquecendo-se ou outro, seja qual for a argumentação, é esvaziar o Cordeiro e torná-lo incoerente.
(4) E finalmente trazer o Cordeiro para o centro de nossa fé é reafirmar que o céu é mais que um pressuposto teórico ou escape psicológico, é a certeza de que ele é um lugar acolhedor e seguro – é a casa do Pai – e o lugar onde cumpriremos nosso destino eterno (veja as palavras de Jesus em Jo 14:1).
Com certeza a Graça não é de graça, custou o sangue precioso do Cordeiro, mas foi exatamente por este sangue que hoje vivemos sob a tutela da graça.

(A partir de uma reflexão publicada no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 25 de junho de 2009)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Conselhos bíblicos sobre adoração e culto – NA PROFECIA DE APOCALIPSE

 “Àquele que está assentado no trono, e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória, e o poder, para todo o sempre!”
(Ap 5:13)


Apocalipse é o livro mais celebrativo e festivo de todo o NT por centrar-se na glorificação do Cordeiro que foi morto e venceu.  Especificamente de sua leitura podemos – e devemos – aprender e aplicar seus padrões aos nossos cultos hoje.
# Centralize sua vida na adoração a Cristo.  Faça de sua existência toda um culto ao Senhor (o Sl 34:1 fala em louvor contínuo).
# Lembre-se que adorar é o que se faz no paraíso – foi no Éden e será nos céus – então comece a praticá-la desde já (a adoração de eternidade a eternidade é citada no Sl 106:48).
# Isto é importantíssimo.  Faça parte do grupo dos santos que louvarão ao Senhor – aqueles que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro e foram comprados por este preço (o louvor dos justos está em Sl 140:13).
# Tenha cuidado com o direcionamento e sua adoração.  Deus exige exclusividade.  Louvor e culto só devem ser prestados a Cristo, e qualquer outra intenção é idolatria (veja com diz o salmista em Sl 16:2 e Sl 73:25).
# Inclua na sua adoração a celebração pelos atos poderosos de Deus na história e anuncie a todos o que ele tem feito (vários salmos abordam este tema, por exemplo: Sl 9:1; Sl 66:16; Sl 118:17 e Sl 145:6).
# Mantenha-se hoje e sempre ligado à comunhão dos santos – a igreja – e participe de sua adoração de maneira efetiva para que no final de tudo possa também participar do banquete eterno do Cordeiro (em Ap 19:17 e nos Sl 133:1 e 95:1).
# E acima de tudo, encontre-se com Cristo no culto em sua igreja, pois foi para isso que Deus lhe criou e você só será feliz e se sentirá completo (pleno) e realizado neste encontro de adoração (assim exulta o salmista no Sl 122).


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

CÂNTICO DE ROMAGEM

Na parte final do Livro dos Salmos, há quinze salmos chamados de Cânticos de Degraus, Cânticos de Peregrinação ou Cânticos de Romagem.  Eles eram entoados enquanto o povo se dirigia para o santuário e expressam tanto o sentimento como a preparação espiritual dos fiéis que estão indo adorar a Deus. 
Um deles – o de # 130 – retrata com simples profundidade o anseio do crente pelo encontro com o Senhor Deus.
O salmo parte das profundezas [da alma] de onde vem o clamor pelo Senhor: Escuta, Senhor... (v. 1).  É como se o salmista quisesse dizer que no fundo do seu ser o que realmente importa é estabelecer um contato com Deus. 
Enquanto se dirige à adoração, é preciso manter aberto o canal com o Mestre.  Eu diria: deixando as superficialidades da vida e buscando ao Senhor com a mais sincera de minhas intimidades.  Lá onde só Deus me conhece é que quero ser visto e ouvido pelo meu amado Senhor.
Mas este contato íntimo com Deus me põe a desnudo.  Na intimidade, Deus me vê por completo – estou completamente exposto.  E mais: é diante de Deus que eu me vejo quem realmente sou, e assim que constato que sou um pecador e que – embora necessite e deseje a companhia divina – não posso sobreviver na sua presença. 
Diante disto o salmista questiona: Quem subsistirá? (v. 3).  Mas sua confiança é inabalável, ele sabe que somente em Deus está o perdão para os que o temem (v. 4). 
E o desejo do encontro suplanta o temor da reprimenda.  Por isso ele não teme: espero pelo Senhor mais do que os sentinelas pela manhã (v. 6). 
Desta forma, este salmo de apenas oito versos declara o maior desejo de minha alma: antes de qualquer coisa nesta vida o que mais quero é a estar na presença sagrada.  Mais que qualquer segurança; melhor que qualquer esperança; mais que qualquer satisfação; o que eu realmente desejo é estar com o Senhor.
Que este seja o nosso canto enquanto nos dirigimos à Casa do Senhor para adorá-lo – reflexo de toda a nossa vida.  Aleluia.              


terça-feira, 12 de setembro de 2017

JESUS E O TEMPLO – uma análise de Marcos 13:3

Mais uma vez compartilho a resposta a um questionamento que me foi encaminhado.

Parei um pouco para buscar maior segurança quanto a questão.  Ela é bem mais interessante que a visão inicial poderia supor.  E vou confessar: enriqueceu minha exegese.

Colocando o problema –
No grego a frase é: ... κατέναντι τοῦ ἱεροῦ.  O termo em questão é a expressão que pode funcionar como advérbio ou como preposição – no caso: penso que preposição com genitivo.
De saída veja: o termo aparece apenas oito vezes no NT grego e outras mais de oitenta na LXX e é formado pela aglutinação das preposições: κατά (para) + ἔναντι (perante). 
Importante: neste contexto do Sermão profético, as citações paralelas dos sinóticos não usaram o termo.  Confira Mt 24:3 e Lc 21:5.  Então a solução tem que passar por outro caminho...

Colhendo a expressão no NT grego –
Uma boa citação é Lc 19:30 – ... τὴν κατέναντι κώμην.  Aqui a tradução direta e simples seria: ... ao povoado em frente.
Outras citações interessantes são Mt 21:2 – ... τὴν κατέναντι ὑμῶν... diante de vós; e 2Co 2:17 – ... κατέναντι Θεοῦ – ... na presença de Deus (também 2Co 12:19).

Passeando em outras traduções –
A Vulgata Latina é direta: ... contra templumcontra o templo.
Lutero em alemão preferiu: ... saß gegenüber dem Tempel – que estava contra o templo.
Em inglês, a King James diz: ... over against the temple – sobre (contra) o templo.
A tradicional Reina Valera em espanhol: ... delante del templo – diante do templo.
Já a italiana Riveduta:  ... dirimpetto al tempio – oposto ao templo.

Opções em português –
Almeida revista e atualizada (1995): ... defronte do templo.
NTLH (2000): ... olhando para o templo.
NVI (2000): ... de frente para o templo.

A que chegamos –
Depois destes palavreados todos, vamos tentar uma melhor uma tradução e mais coerente.  Entendo que Marcos apenas estava querendo apontar a posição geográfica (topográfica) de Jesus enquanto ensinava a seus discípulos sobre o princípio das dores em relação ao tempo profético que está diante de nós – como esteve diante de Pedro, Tiago, João e André quando o questionaram.
Jesus estava no cenário do templo de Jerusalém e, com certeza, aproveitou a descrição dos eventos que sucederiam àquele lugar sagrado para ensinar suas lições.  Profecia é sempre assim: parte de uma situação presente para anunciar o que Deus tem a fazer e dizer!
Talvez seja realmente um pouco forçado a tradução muito literal da expressão como oposição entre Jesus e o templo – embora reconheça que este gostinho teológico adoce a boca!. 

Acho que uma boa tradução seria –
Estando Jesus sentado no Monte das Oliveiras, tendo o templo por pano de fundo...
Defronte ou em frente respeita o fraseado original e não ofende o termo.  

Quanto a riqueza exegética –
Em relação à tradução e à lingüística talvez não precise ir muito além.  Mas esta simples expressão atiçou meu radar teológico-exegético.  É assim que faço!
Com certeza vai merecer maiores investimentos bíblicos e históricos uma reflexão sobre as entrelinhas da construção teológica dos sinóticos e como eles apontam a oposição entre os seguidores de Jesus e os seguidores do templo.  Quanta riqueza!!!